Nos últimos 30 anos do futebol houve dois treinadores que mudaram radicalmente os conceitos de jogo, duas referências máximas do futebol ofensivo de alto quilate. Ambos vão passar à história porque as suas equipas jogam de forma atractiva, ofensiva, sem piedade do rival quando aumentam o ritmo para uma velocidade que mais ninguém aguenta. E no entanto, para ambos, o êxito do ataque parte sempre de um excelente trabalho na defesa. Querem atacar bem? Então preocupem-se sempre por garantir que a equipa sabe, antes que tudo, defender melhor. Sacchi e Guardiola sabem perfeitamente do que falam. As suas equipas partiram sempre de um principio básico. São equipas de treinador até ao último terço, equipas de jogadores no último. Este FC Porto dista muito desses princípios.
José Peseiro não é nem Arrigo Sacchi nem Pep Guardiola, está claro. Mas é, e sempre foi, um treinador que pensa de outra forma. As suas equipas são de tracção dianteira. As suas linhas defensivas sofrem muito e com regularidade pelo posicionamento em campo do seu 4-2-3-1. Peseiro começa a pensar o jogo com a bola no circulo central. Trabalha bem - tem-se apreciado evidentemente a diferença - o jogo ofensivo, sobretudo as sobreposições entre os interiores e os extremos no complemento ao ataque. Mas o jogo dos médios defensivos, laterais e centrais peca de ingénuo. A sua filosofia de "se o rival marca dois, eu marco três", lembra muito o futebol sul-americano ou a realidade europeia pre-anos 70 mas está bastante desfasada da realidade. Até uma equipa de estrelas absolutas e inquestionáveis como o Real Madrid da primeira geração dos "Galácticos" percebeu isso quando o génio da sua linha avançado pagou ano após ano os erros tácticos a que a sua linha defensiva estava exposta. Não, o modelo Peseiro - e de alguns treinadores da sua escola - hoje em dia pode ser atractivo em momentos concretos do jogo mas é pouco fiável. Tudo porque o seu enfoque de jogo parte da premissa que a defesa é um elemento secundário na coordenação colectiva. O jogo começa mais rápido, desde atrás, menos pensado e a cada perda de bola os jogadores da linha mais recuada encontram-se, quase sempre, mal posicionados. Tal é a vocação ofensiva que muitas vezes não existe um fio de conexão entre os centrais e os laterais, por um lado, e os laterais e os médios interiores, por outro. Nesse cenário não é difícil, sobretudo a equipas que jogam no espaço e aproveitam a velocidade para contra-atacar - como são quase todos os clubes da liga portuguesa - encontrar oportunidades para marcar. Depois é um jogo de roleta russa. A eficácia do rival, a eficácia própria, a capacidade emocional de resposta, o fluxo ofensivo criado, tudo entra numa equação perigosa. O triunfo sobre o Moreirense - por 3-2 com uma reviravolta de dois golos desfavoráveis - é o perfeito exemplo desse puzzle. Peseiro pode sentir-se triunfal porque a sua ideia prevaleceu (o rival marca dois, eu marco três), mas o seu esquema parte de um principio perigoso. É altamente provável que te marquem sempre mas não podes garantir que tu vais marcar sempre mais um. A derrota antes da à visita à Luz com o Arouca - que pode ter sido decisiva em contas para o título - é o perfeito exemplo disso mesmo.
O maior defeito que os adeptos apontavam - e muitos com razão - a Vitor Pereira e a Julen Lopetegui (mais no seu caso que tinha melhor matéria-prima) era a tremenda dificuldade de passar de uma boa organização defensiva a um jogo ofensivo eficaz e vertical. Eram o modelo oposto de Peseiro. Para ambos os treinadores - claramente da escola Sacchi/Guardiola - as suas equipas começavam a pensar-se desde o momento em que o guarda-redes colocava a bola em jogo. Era importante, não, fundamental, uma boa coesão defensiva e articulação entre sectores, um avanço progressivo das tropas antes de explodir o rastilho final no último terço.
Quando bem executado o modelo propiciou grandes jogos colectivos mas se Vitor Pereira quase nunca teve arsenal ofensivo com essa inteligência de jogo e talento (no seu primeiro ano teve de abdicar do poder de explosão de Hulk para colocá-lo como referência ofensiva e no segundo faltou-lhe o brasileiro para conectar com Jackson), já Lopetegui pecou de erros próprios na concepção de jogo colectivo. No entanto, ambos perfilavam a ideia de que a equipa tinha de funcionar como um todo nos primeiros três quartos de campo para depois permitir a explosão do talento individual no último terço. A defesa, nos dias de Vitor Pereira, era absolutamente tremenda na ocupação do espaço e no controlo da zona e com Lopetegui - apesar de Fabiano, Marcano, Maicon ou Indi, jogadores de perfil muito inferior - foi uma das melhores de todas as ligas europeias enquanto que na Champions, não fosse pelo massacre de Munique - um erro de gestão técnica tremendo - teria igualmente terminado o torneio nas menos batidas. Não esperem ver o mesmo com Peseiro.
Tem culpa o treinador do Porto dos golos sofridos recentemente? Sim e não.
A Peseiro não lhe podemos apontar o dedo na concepção do plantel - responsabilidade da SAD e de Lopetegui - nem nos reajustes de Janeiro - responsabilidade da SAD. Ao técnico foram-lhe dados ovos para trabalhar - poucos e podres - e a situação de Maicon (ainda por explicar) apenas piorou o cenário forçando-o a recrutar para as convocatórias dois jogadores com idade de júnior, Chidozie e Verdasca. Nesse cenário - múltiplas lesões, suspensões e reajustes - era absolutamente lógico e natural que houvesse maior permeabilidade defensiva. No entanto o grave nesse cenário é que Peseiro - que quer ser fiel aos seus princípios - uniu às baixas e ao plantel de pobre qualidade uma radical mudança táctica que rasga os princípios assimilados durante ano e meio. Peseiro quer tirar o Lopetegui de dentro da cabeça dos jogadores (olhando para Herrera, como melhor exemplo, está a conseguir) e a sacar o máximo potencial de jogadores que em 4-3-3 posicional renderiam muito pouco (a prova está em Suk, tem tudo para ser um novo Pena, esforçado mas excessivamente dependente do espaço e dos lances divididos para se evidenciar) no sector ofensivo. A consequência é abdicar da segurança defensiva, da estabilidade do jogo desde a retaguarda e dos naturais desajustes no miolo que provocam perdas de bola e contra-ataques do rival. A pré-época não serve apenas para preparar os jogadores fisicamente. É o único momento do ano em que o treinador tem três ou quatro semanas para aplicar as bases da sua ideia que são melhoradas com treinos pontuais. A partir do inicio da temporada o ciclo não permite a implementação de uma nova ideia táctica com êxito assegurado. As sessões de treino medem-se entre recuperação esforço, preparação tendo em conta o rival, garantir estabilidade dos níveis físicos e algum que outro dia dedicado a lances estudados. Não há tempo (nem força, física e mental) para uma pre-epoca em Fevereiro. O clube sabe isso, o treinador sabe isso e os jogadores sabem isso de modo que tudo o que estamos a viver no presente vai contra toda a lógica da gestão de um grupo. E só é possível devido ao desnorte da direcção - que forçou a mudança sem ter um plano B coerente - e o desespero total da falta de rumo que permite acreditar que mudando tudo o que estava feito os resultados, forçosamente, serão diferentes.
O 4-2-3-1 e as ideias de Peseiro, com uma boa pre-epoca, podem triunfar ainda que o mais provável é que sofram nos momentos chave a consequência do poder do controlo de jogo do futebol moderno. De certo modo Peseiro quer parecer-se mais a Paulo Fonseca do que a Vitor Pereira ou AVB. Agora tem todo o crédito do mundo porque nenhum adepto vai reclamar nada a um treinador-bombeiro sem perfil e que chegou num momento de desespero. Mas é preciso ter-se cuidado quando se brinca com o fogo. Velha é a história contada por Sacchi do dia em que van Basten, irritado por tanto trabalho táctico, lhe atirou à cara que ele era a estrela da companhia e que o êxito do Milan dependia dos seus golos. Sacchi sorriu e pactou um desafio. Se van Basten, Gullit, Ancelloti e Donadoni fossem capazes de superar o seu quarteto defensivo numa sequência de ataque a partir do meio campo, dar-lhe-ia razão. Mas se a defesa recuperasse a bola, teriam de voltar a começar o ataque do zero. Durante duas horas a defesa de Sacchi levou a melhor linha de ataque ao desespero. Não marcaram nenhum golo. Van Basten aprendeu a lição. Algo similar fez Guardiola em Barcelona, reforçando sempre às suas estrelas ofensivas que tudo começava a partir da conexão Valdés-Pique-Puyol-Busquets. Ninguém espera um golpe de génio táctico de um treinador com dez anos de fracassos acumulados às costas mas jogos como o do último fim-de-semana também não podem surpreender ninguém. Com um plantel de remendos querer jogar no fio da navalha pode provocar doses de adrenalina que o jogo dormido e pausado do 4-3-3 de Vitor Pereira (sem jogadores de ataque válidos) ou de Lopetegui (sem ideias) eram incapazes de transmitir. Mas a navalha acabará sempre por deixar as suas marcas.

