domingo, 29 de julho de 2018

Conceição, Jesus e as previsões de José Eduardo Simões

José Eduardo Simões e Sérgio Conceição (foto: Record)

José Eduardo Simões (ex-presidente da Académica) conhece bem Sérgio Conceição…

«O acórdão do Conselho de Justiça (CJ) que mantém a suspensão de 50 dias a Sérgio Conceição, aplicada na sequência dos insultos dirigidos ao árbitro Bruno Paixão e a José Eduardo Simões durante o Sp. Braga-Académica de março de 2015, revela vários pormenores dos relatórios de árbitro, delegados e polícia que ajudam a perceber o que aconteceu.
Assim, nos "factos provados", é descrito que "aos 22 minutos da primeira parte (...), José Eduardo [Simões], dirigindo-se a Sérgio Conceição, disse 'ò filho da p..., vai trabalhar'". (…)
Já no túnel de acesso aos balneários, Conceição "agarrou José Eduardo Simões, chamou-lhe 'filho da p...' e disse-lhe 'paga o que deves'", pode ler-se ainda nos "factos provados" do acórdão.»


Hoje, no jornal O JOGO, José Eduardo Simões escreve o seguinte:

«Sérgio Conceição é um exemplo de capacidade de trabalho, de talento e de ambição. Sabe treinar qualquer equipa; é um óptimo treinador de jogo; sabe valorizar activos perdidos; e mostrou capacidade para apresentar resultados com meios algo escassos face aos da concorrência. Tem objetivos muito claros. Ele quer conquistar títulos europeus e não apenas nacionais. Pretende ter no currículo pelo menos o que Artur Jorge, Mourinho ou Villas-Boas alcançaram. E quer ter condições para poder alcançar rapidamente esses objectivos. Se as não tiver, sairá do Porto e de Portugal no final da época. Não sei por que razão, mas vejo escrito nas estrelas o regresso de Jesus no final desta temporada, mas o equipamento que virá usar não será vermelho nem verde


Não conhecia os dotes de Zandinga do ex-presidente da Académica.
Pois bem, fica aqui, para memória futura…

domingo, 22 de julho de 2018

Um adeus que tarda

Nota prévia: este texto foi escrito pouco depois da conquista do título; entretanto deu-se o caso de Alcochete e os nossos problemas até nem pareciam assim tão graves. O problema é que depois da poeira assentar, percebe-se que os problemas são inegáveis e não vão desaparecer com o tempo.

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Após quatro longos anos de travessia do deserto, encontramos finalmente o messias que nos guiou de volta à "terra prometida". Aqui chegados, talvez esteja na hora de olhar para trás e pensar no quão fortuita foi essa descoberta, e acima de tudo, como poderemos evitar futuras travessias - uma pista: não adorar falsos deuses.


Para quem já não estiver relembrado, o Sérgio Conceição não foi a primeira escolha para a "dança de cadeiras" em que se transformou o banco do Porto - foram 5 treinadores em 5 anos - mas a 2ª ou 3ª escolha depois do Marco Silva, o inútil que achou não ser possível lutar pelo título com os jogadores que teria à disposição - rapaz, deves estar a sentir-te muito estúpido...! O Sérgio Conceição foi, portanto, um incrível golpe de sorte. O mesmo que avaliar a montra de electrodomésticos do Preço Certo em 10 euros... e mesmo assim acertar. Só que a sorte não dura sempre; e quando ela faltar, outros factores entram em jogo como a dedicação, o profissionalismo...

É por isso que, neste momento de grande alegria e euforia, se impunha que esta direcção, completamente esgotada e sem mais para oferecer, aproveitasse a porta que o Sérgio Conceição lhes entreabriu, e saísse de cena. Com eterna gratidão por tudo o que fez de bom... mas sem esquecer que há 5 anos deixaram sair um treinador campeão - e viu-se como eles são fáceis de encontrar; atolaram o Clube em dívidas a ponto ficar sob vigilância da UEFA, e de forma completamente passiva, deixaram que o tal "polvo" tomasse conta de tudo, comendo e calando. Só um elemento novo, alguém vindo de fora, poderia retirar o Porto do atoleiro; com quem já cá estava, nunca se poderia contar... porque foi quem já cá estava que levou o Porto a esse mesmo atoleiro.


A pergunta que se impõe é: o que é que esta direcção tem para oferecer? E a resposta é simples: nada. Nada do que esta direcção fez nos últimos 5 anos foi extraordinário, excelente ou sequer a um nível compatível com a experiência acumulada. Em desespero, contrataram o primeiro treinador que disse "sim". Contratações não houve porque não há dinheiro. É isto o melhor a que o Porto pode almejar? Eu não acredito. Nem aceito.

Haja consciência de que tudo tem um fim. O desta direcção já chegou (há algum tempo). Aproveite-se a oportunidade para sair (merecidamente) pela porta grande. E para virar a página. O próximo deserto está aí à porta. Se nada mudar, engole-nos.

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Como é óbvio, a janela de oportunidade para o tal virar de página, esgotou-se, mas o pior é perceber que nada mudou. É neste momento mais provável perdermos o treinador, do que assistirmos a um esforço consciente para evitar erros recentes. Ainda há tempo para emendar a mão, mas fica claro que esta Direção não consciência do que fez mal, e como tal não tem qualquer interesse em mudar de rumo. O Porto não precisa de um presidente-adepto, mas seguramente também não precisa do presidente que tem actualmente.

domingo, 1 de julho de 2018

Enterro do futebol de posse

A chegada dos "pseudo intelectuais" ao futebol teve muitas coisas boas. Os métodos, a ciência e a inteligência permitiram trazer para o jogo algumas dimensões menos trabalhadas anteriormente.
Houve, no entanto, um ponto que os intelectuais trouxeram e que foi, a meu ver, muito negativo: a cultura (quase a religião) da posse.
Já sénior, tive um treinador que, com ironia, dizia: "O futebol é uma coisa muito simples. É pegar na bolinha e pô-la dentro da baliza".
Os intelectuais repararam que, na maior parte dos jogos, segundo as estatísticas, ganhava quem tinha mais tempo a bola, ou seja, quem tinha mais posse. Concluíram, então, que a possa originava e era causa da vitória.
Associaram a esta conclusão - absurda, como é evidente - uma recomendação aos jogadores: "Não larguem nunca a bola, mesmo que estejam em situação de risco e próximos da vossa baliza, pois se mantiverem a bola, não sofrem golos".
Este tipo de pensamento foi, como disse, muito negativo: vemos jogos que parecem "meiinhos" e equipas a sofrer golos ridículos, originados por perdas de bola em zonas proibidas (durante a minha formação, jogador que perdesse a bola em zona complicada, saía imediatamente do jogo).
Mas tudo continua, alegremente, a associar posse a vitória.
Ora, a posse não é causa da vitória. O que se passa é que, habitualmente, a melhor equipa tem mais posse; e a melhor equipa, habitualmente, ganha o jogo. Mas não ganha por ter mais posse, antes por ser mais eficaz nos diversos "momentos" do jogo (a defender, a disputar cada lance, a construir e, fundamentalmente, a finalizar).
O absurdo da posse fica mais exposto em provas onde a excelência está mais presente: em campeonatos da Europa e campeonatos do Mundo. Aí, manifestamente, não vai mais longe quem tem mais posse, desde logo porque equipas teoricamente inferiores, conseguindo concretizar nas poucas oportunidades que têm, alcançam o sucesso.
Fiz essa análise no campeonato da Europa de 2016, em que Portugal não teve um futebol de posse e foi feliz.
De resto, muito mais ligada à vitória está a distância percorrida pelos jogadores, por ser um indício de chegada mais rápida à bola e de sucesso na disputa de cada lance.
Neste campeonato do Mundo tivemos menos posse contra Marrocos (mas ganhámos nos duelos) e vencemos. Tivemos mais posse contra o Uruguai e perdemos.
O que fez o Uruguai? Fez o que dizia o meu treinador: pegou na bolinha e colocou-a dentro da baliza.
Também em Portugal, tivemos o exemplo do que sucedia com Lopetegui e do que sucedeu com Sérgio Conceição.
Tudo é importante: defender bem, construir bem e, especialmente, finalizar bem. A posse  pode ser um meio, mas nunca deve ser um fim.
Eu prefiro o futebol da luta, da disputa de cada lance, do correr mais do que o adversário, do risco nas jogadas de ataque e do limpar a zona defensiva (não arriscando aí). 
Espero estar a assistir ao enterro do futebol de posse, o futebol dos que aceitam e se resignam à frase "Jogámos como nunca, perdemos como sempre".
Que esse futebol descanse em paz.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

"Não me incomoda que a PJ venha cá..."

As idas da PJ ao estádio da Luz (SIC Notícias, 26-06-2018)

Vieira e as provas de ilegalidades (Record, 25-06-2018)

"Não é por existirem muitas investigações com base em denúncias anónimas que se prova alguma coisa"
Luís Filipe Vieira, 25-06-2018

Provas? Já argumentam com (a falta de) provas?
Primeiro puseram em causa a autenticidade dos emails.
Depois, quando deixou de ser possível negar o conteúdo dos emails, a estratégia comunicacional foi pôr em causa a forma como os emails foram obtidos.
Agora, perante o acumular das investigações judiciais (validadas por diferentes juízes) e as sucessivas idas da PJ ao estádio da Luz, a estratégia de defesa é falar no DIAP do Porto e dizer que não há provas de ilegalidades.
Opa, a coisa está a ficar cada vez mais negra...

Cartoon de Carlos Laranjeira, no programa 'Tempo Extra', Abril 2018

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A “coerência” e interesses da coligação anti Bruno

Para os mais ofendidos para as declarações do meu homólogo do Sporting, deixem-me dizer-vos: no Sporting os sócios entraram de cara tapada, aqui também. No Sporting acenderam tochas, aqui também. No Sporting agrediram jogadores, aqui também. Querem discutir quem são os melhores? Está tudo mal.


Adeptos do Vitória Guimarães a invadirem o treino (foto: Guimarães Digital)

O que o presidente do Vitória de Guimarães afirmou, vem na linha do que já tinha sido dito pelo ex-treinador do Vitória (Pedro Martins) e confirma que aquilo que se passou em Alcochete foi em tudo idêntico ao que já tinha sucedido em Guimarães, no início deste ano.

Ah, mas o Bruno de Carvalho criticou os jogadores, disse que alguns queriam forçar a sua saída do Sporting e chegou ao ponto de dizer que eram uns meninos mimados.
Pois, não parece bem um presidente do clube dizer isto.
Aliás, nunca se tinha visto um presidente do Sporting dizer coisas destas, pois não?

Moutinho era uma maçã podre que iria contaminar o grupo


Eu, por acaso, acho que é bastante mais ofensivo chamar “maçã podre” a um jogador do que “menino mimado” mas, claro, pode haver quem pense o contrário…

Vieira, 2003
Finalmente, Bruno de Carvalho é também criticado por ser um “presidente-adepto” e que é ridículo vê-lo saltar para dentro do campo, ou dos pavilhões, para festejar aos saltos as vitórias com os jogadores.

Ora, conforme todos sabemos, nunca se tinha visto em Portugal um presidente de um Clube/SAD festejar com os jogadores de uma forma exuberante, pois não?



Em resumo, a comunicação social mostra toda a sua coerência ao atacar ferozmente o Bruno de Carvalho porque, de facto, nunca se tinha visto o presidente de um dos grandes clubes com comportamentos ou declarações semelhantes, certo?


P.S. A coligação anti Bruno, liderada por rostos conhecidos da elite/oposição sportinguista, é engrossada pelos “cartilheiros” do slb, os quais dominam o panorama dos media portugueses. A estes, que não são poucos, juntam-se também jornalistas e comentadores que têm boas relações com conhecidos players (Joaquim Oliveira) ou agentes do futebol (Jorge Mendes e outros). Por isso, se o Bruno de Carvalho conseguir sobreviver à “guerra” que está a travar com este “exército”, prevejo que, depois de um “Verão quente”, a próxima época vai ser escaldante…

Luís Filipe Vieira e o amigo Dias da Cunha

Vieira e os almoços com presidentes do Sporting

P.S.2 Sou adepto e sócio do FC Porto. Não gosto do estilo do Bruno de Carvalho, não simpatizo com a figura e não gostaria de ver alguém parecido na presidência do meu clube. Contudo, em termos de posicionamento nesta “guerra civil” do clube de Alvalade, onde parece valer tudo, não posso deixar de levar em conta a forma encarniçada como jornalistas e “cartilheiros” encarnados se mobilizaram para ajudar a derrubar o atual presidente do Sporting. Ora, se nesta “guerra” leonina os interesses do slb estão de um lado, os do FC Porto seguramente que estarão do outro…

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Ricardo, Dalot e os falsos dramas



No espaço de uma semana o FC Porto ficou sem o seu lateral direito titular e o seu natural sucessor. Pode ainda perder o suplente do primeiro, com contrato por renovar. Três jogadores de uma posição que, sem ser critica, passou de ser de overbooking a uma nova dor de cabeça para Sérgio Conceição e que voltou a levantar questões entre os adeptos sobre a forma de trabalhar da SAD. A mesma que há umas semanas foi aplaudida pela renovação de Iker Casillas – figura fundamental no balneário e que demonstrou um enorme apego ao clube ao aceitar baixar o seu elevadissimo salário – agora está baixo a mira dos adeptos. Por uma vez sem grandes motivos.

Ricardo Pereira foi emprestado há três anos ao Nice. Era um extremo com algum potencial mas que poucos tinham imaginado que se poderia converter numa figura preponderante como titular a lateral direito. Lopetegui utilizou-o algumas vezes mas sem grande sucesso e ninguém, absolutamente ninguém, parecia demasiado preocupado com a duração do seu contrato, por um lado, e o valor da sua cláusula de rescisão, 25 milhões de euros, por outro. Os dois anos em França mudaram completamente o cenário. Ricardo passou de dispensável a cobiçado por meia Europa, converteu-se num lateral de projeção ofensiva tremendo, capaz de jogar em ambas bandas, e quando voltou ao Porto encontrou uma nova realidade. A chegada de Luis Gonçalves, o actual director desportivo, mudou o paradigma de trabalho. Há – e Sérgio Conceição voltou a levantar essa questão numa recente entrevista – muitos vicios antigos. Vicios da mesma direcção – e é preciso lembrar que a mesma direcção dos êxitos dos anos 80, 90 e 2000 foi a mesma do desastre desportivo e financeiro que nos atirou para os braços da UEFA na década em que estamos – mas, sobretudo, de uma cabeça que já não está. Gonçalves tem outra forma de trabalhar, mais profissional, mais enfocada com o clube e menos com o seu portfolio pessoal, e isso tem-se notado. Mas há milagres impossiveis quando o mercado é o que é, os jogadores são quem são e as limitações estão à vista de todos em cada Relatório de Contas e cada aviso da UEFA. Ricardo chegou ao Porto com meia Europa atrás e marcado por uma gestão anterior que o considerou praticamente descartável. É normal que, apesar de tudo, viesse com desconfiança e mais normal ainda que durante todo o ano achasse que não havia necessidade de renovar o contrato para, sobretudo, ampliar essa cláusula de rescisão, que Luis Gonçalves tanto tentou. Sabia que tinha mercado, sabia que tinha provado o seu valor e sabia, também, que no passado o clube o tinha descartado sem problemas. Sob a possibilidade de sair livre, a sua venda – tendo ainda para mais em conta a necessidade de gerar mais valias até ao fim do mês – faz absolutamente todo o sentido. Para o mercado de laterais direitos, Ricardo entra directamente para o top. Sim, o mercado está inflacionado e o britânico mais do que qualquer outro mas se há posição que pouco tem notado isso é a de lateral direito. Por outro lado, a um ano do final do contrato, conseguir 20 milhões de euros por um jogador que até há um ano e meio era quase visto como dispensável, nunca poderá ser um mau negócio. Em 2015 devia ter sido renovado e a cláusula ampliada, sim. Mas em 2015 poucos imaginavam a sua progressão e em 2015 quem geria o futebol do clube tinha pouco interesse em negócios sem consequências paralelas. Ricardo sai sendo um dos jogadores mais importantes de uma época fundamental, um jogador que deu sempre tudo e que merece o nosso aplauso e dentro das circunstâncias em que se move, a direcção desportiva também acaba por gerir a situação bem – é dificil que Ricardo se valorize com o Mundial e as mais valias têm de chegar antes do 30 de Junho – e com rapidez. Agora muitos podem dizer que este negócio tinha lógica pensando em que a posição estava coberta por Dalot...e agora também se perde Dalot. Não é de todo certo.

Em primeiro lugar Dalot não era para Conceição nem nunca foi a alternativa directa a Ricardo.
Desde a época passada passou a ser utilizado por Antonio Folha como lateral esquerdo porque recebeu indicações de Conceição. O técnico principal, que nunca foi muito à bola com Layun, via-o mais como alternativa a Alex do que a Ricardo, mostrando sempre que teve ocasião grande confiança em Maxi Pereira. Dalot portanto nem era o suplente de Ricardo e depois de realizar meia duzia de jogos, uma inesperada lesão cortou o seu contributo na temporada. Nada garantia que era o titular imediato de futuro para o técnico. Podia ser uma alternativa muito sólida, podia ser, sem dúvida, o titular do depois de amanhã mas nada, absolutamente nada, nos impõe a sua titularidade como um facto consumado. Por outro lado Dalot sofre, como outros jogadores da formação, da mesma consequência do mau trabalho realizado na base dos antecessores de Luis Gonçalves que se deparou com uma geração de excelentes talentos formados em casa mas pouco “mimados” pelo clube, jogadores com contratos muito inferiores ao seu valor real de futuro, a ganhar bem menos que outros jogadores que entravam em negócios com mais efeitos colaterais e cujo o futuro esteve abandonado muito tempo. Apesar de portista – e ninguém deve porque, não faz sentido, duvidar do portismo de Dalot – o jogador e a sua família, que têm sempre, nestes casos, muito a dizer, sabiam não só de um interesse de meia Europa como dessa falta de interesse, até Novembro, do clube. Foi a partir dessa altura que Luis Gonçalves começou a trabalhar num pack de renovações em que Dalot era prioridade. E durante esses meses o jogador e a família foram dizendo que sim, que não, que sim, que não, que já vemos. A oferta estava na mesa, era uma boa oferta – dentro das limitações do clube e do valor real presente do jogador – mas Dalot não estava sequer em final de contrato pelo que poucos imaginavam tanta urgência. O problema é que esse mesmo contrato original tinha uma cláusula muito baixa – um reflexo da falta de interesse do clube na formação nos anos anteriores – e que era perfeitamente acessível a meia Europa. Dalot não sai porque não renova ou porque acaba o contrato. Não sai porque quer forçar a saída. Sai porque o contrato original que lhe fizeram era mau para o clube (cláusula) e para o jogador (salário) e porque apareceu outro clube, com um perfil mediático e uma oferta financeira, irrecusável. Deixa 20 milhões de euros em caixa (para um jogador com seis jogos de A e dentro da posiçõa de lateral direito, uma cifra muito considerável), facilita a gestão do clube ao gerar mais valias e não compromete em excesso o presente (o futuro a longo prazo é outra conversa) já que, a todos os titulos, Dalot não era para Conceição o que é, por exemplo Alex Telles.

E aí é importante entender o paradigma.
Doi que Ruben Neves tivesse saído praticamente grátis para o seu real valor, literalmente empurrado pela necessidade de fazer dinheiro. Que André Silva tivesse saído sem completar sequer o seu processo formativo. São simbolos da casa que saem cedo com muito para dar. Dalot podia ter vindo a pertencer a esse clube, sem dúvida, mas a sua decisão – cuja lógica pessoal é real no mercado actual – é também reflexo de outra realidade. É cada vez mais dificil a clubes como o Porto, do seu perfil e com os seus problemas económicos, manter as pérolas da formação mais do que 3 ou 4 anos no plantel principal quando o seu valor é alto. Urge criar uma cultura de potencialização desses activos com contratos que recompensem os jogadores (salário) e protegam o clube (clausula) e esse trabalho está a ser feito...agora. O que foi (mal) feito até ao presente tem e terá ainda as suas consequências e a ida de Marcano para a Roma é só outro exemplo. Mas na definição de prioridades desportivas presentes para Conceição manter elementos chave da estrutura titular como Danilo, Alex Telles, Casillas, Felipe, Brahimi ou Marega é mais importante que pensar a dois ou três anos de distância porque as finanças do clube a isso obrigam e porque a entrada nos milhões da Champions vai exigir, cada vez mais, o título e a competitividade imediata antes de pensar no futuro. Se Dalot hoje sai por 20 milhões de euros e Ricardo, também lateral direito e também para o mesmo mercado, sai  por um valor similar, são reflexo da nossa debilidade negocial mas também de que esse mercado, o de lateral, é o que é e será muito dificil fazer negócios estratosféricos. Portanto na prática, apesar da tristeza de não ver Dalot crescer em casa – por decisão sua – não se pode falar em maus negócios em ambos casos. Fernando Fonseca terá a sua oportunidade (outra boa promessa da casa), Maxi provavelmente renove (a saída de Ricardo, Marcano e eventualmente Reyes vai também aliviar as arcas para gerir a sua renovação, do gosto do treinador) e não há um drama sobre a mesa como poderia existir se fosse Alex Telles – figura fundamental no jogo de Conceição – a sair sem alternativas imediatas. A direcção desportiva do presente está a olhar pelo futuro sem se esquecer que vive no limbo do dia a dia e também está a sobreviver ao passado e à pesada herança que recebeu. O responsável principal continua a ser o mesmo, em ambos os casos, e seguramente estas não serão as últimas consequências negativas, mas a injeção de positividade de Sérgio Conceição, o mais do que merecido titulo e uma forma de trabalhar de portas adentro tem dado sinais positivos de que algo está, realmente, a mudar no nucleo duro do Dragão.

domingo, 6 de maio de 2018

Esta festa é festa de tanta gente

A festa com o principal obreiro deste título

Todos de pé, bandeiras no ar
Todos de azul de pé a gritar
O Porto é o maior e o resto é conversa

A festa dos jogadores no hotel

E todos juntos, todos mão na mão
Todos gritando viva o Campeão
E todos juntos sempre
É sempre uma festa

A festa nos Aliados

E essa festa é festa de tanta gente
Que ser do Porto é nunca estarmos sós
É gritarmos sozinhos e de repente
Ter um milhão de vozes na nossa voz que é voz do

A festa em Lisboa

Porto, Oh Campeão
Invencível dragão
Porto o maior de Portugal
Porto nobre cidade
Terra da liberdade
Donde houve nome Portugal

Porto nobre cidade
Terra da liberdade
Donde houve nome Portugal
Porto, Oh Campeão
Invencível dragão
Porto o maior de Portugal

Todos de pé, bandeiras no ar
Todos de azul de pé a gritar
O Porto é o maior e sempre há-de ser

Nota: Fotos ojogo.pt

sexta-feira, 27 de abril de 2018

O jogo do ano

Depois da brilhante vitória na Luz, da inesperada eliminação em Alvalade e do triunfo sem paliativos frente ao Setúbal o plantel do FC Porto sabe que faltam 270 minutos para acabar a temporada. Não há mais. É ou vai ou racha nestes três jogos que separam a glória da desilusão. Desses três duelos há a obrigatoriedade de conseguir sete pontos de nove possíveis para não depender de tropeções alheios que podem ou não acontecer. Há um Sporting vs Benfica (e sobretudo, dependendo dos resultados de este fim-de-semana pode haver um derby de Lisboa que valha muitos milhões) mas todos aprendemos nestes anos que acreditar que os rivais vão cair num campeonato como este é mais sonho iluso que realidade. Por isso, vamos retirar esse cenário da equação e pensar em nós e como vamos viver estas três semanas. E tudo começa no Funchal onde vamos disputar o jogo mais importante do ano.

Desde que o calendário saiu ficou claro que as últimas três saídas iam ser muito complicadas.
Na Luz o golo de Herrera resolveu uma deslocação não só muito dificil como também determinante por culpa dos pontos perdidos no mês anterior. Mas o campeonato não acabou aí, faltou dois desafios tremendos fora de portas, Guimarães para fechar o ano e o Funchal para marcar um antes e um depois. Partindo do principio que o FC Porto está OBRIGADO a ganhar em casa ao Feirense - do mesmo modo que estava a fazê-lo com o Setúbal e conseguiu-o com um resultado volumoso onde houve mais golos que jogo - então temos de equacionar a possibilidade de que os restantes quatro pontos necessários para o título saiam de dois resultados positivos (vitória+empate) nessas duas saídas. Não há outra. Em Guimarães, com a pressão da última jornada, é importante que o FC Porto chegue com uma pequena margem de erro (o empate) porque nesse dia, se o campeonato estiver aberto, vai valer absolutamente tudo. E há que estar preparado para isso. Pode também dar-se o caso de uma dupla vitória nos próximos jogos e um triunfo do Sporting no derby façam de Guimarães uma festa mas, uma vez mais, convém pensar o pior para não apanhar sustos. Tudo isso transforma o Funchal no jogo do ano. E não podia ser num cenário mais problemático para o FC Porto.

Os Dragões não venceu nos Barreiros há seis temporadas.
A última vitória ocorreu em 2011/12, por 0-2, com Vitor Pereira ao leme e com dois golos de penalty de Hulk, um cenário altamente impensável a estas alturas do campeonato (ter dois penaltys a favor, por um lado, e anotar os dois, por outro).
Depois disso o Porto empatou três vezes a uma bola e perdeu duas por 1-0.
Não é normal, portanto, a história recente do FC Porto, vencer o Maritimo em casa do mesmo modo que, durante os anos noventa e dois mil a visita à ilha da Madeira sempre ficou marcada por pontos perdidos ou vitórias arrancadas a ferros. Que ninguém espere nada mais do que o cenário mais dificil possivel. O Maritimo já fez saber, através de um presidente que até se senta com honras no Dragão, que vão ter o apoio de 6 milhões de portugueses. Sabendo que Carlos Pereira não é bom em matemáticas o certo é que podem ser 6, 5, 4 ou 3 milhões de verdirubros este fim-de-semana mas que, seguramente, na sombra, os que estejam a actuar para que o campeonato dê outra volta, depois do golpe na mesa na Luz, não vão estar tranquilos. As denuncias recentes, tanto da hipotética compra do guarda-redes maritimista como do dinheiro devido pela transferência de Marega só devem provocar a mesma reacção que provocaram argumentos parecidos contra o Estoril: uma resposta de máxima superioridade desportiva em campo para que continuem a falar sozinhos.

O Porto que suba ao relvado do Funchal deve saber que a atitude tem de ser a mesma desses 45 minutos (apesar do desgaste fisico e mental acrescido dos últimos dois meses) porque não há margem de manobra para repetir outro Paços de Ferreira ou Moreira de Cónegos sem levar todos ao limite da sua resistência física e emocional. Exige-se a mesma atitude, a mesma garra e toda a carne no assador desde o primeiro minuto para não dar margem de manobra a erros próprios e alheios, voluntários ou não. Sobretudo porque uma vitória num campo onde o FC Porto tem este historial recente pode revelar-se absolutamente desmoralizador para um rival que está e vai tentar o tudo por tudo para não perder um campeonato de mentira que, só por milagre, ainda pode ter um final feliz. Passar nos Barreiros e voltar com os três pontos é título e meio, não só pela confiança que dá ao grupo mas como pode condicionar, e muito, o ambiente à volta do derby de Lisboa em que o Sporting, vencendo em Portimão, pode chegar em condições de assaltar o segundo lugar. Seria um jogo de vida ou morte sendo ambos conscientes de que uma vitória frente ao Feirense, no dia seguinte, fechava o título de modo (quase) matemático. E depois de tantos meses de luta e sufrimento não há melhor forma que encarar as últimas duas jornadas com esa merecida dose extra de paz. Todos os pontos contam mas há momentos de impacto emocional determinantes. Da mesma forma que o jogo no Estoril ou a vitória na Luz ajudam a definir a temporada 2017/18, o jogo no Funchal tem tudo para ser o jogo do ano. E esse jogo há que ganhá-lo à Porto. Como seja, onde seja, com quem quer que seja. Mas ganhá-lo!

domingo, 15 de abril de 2018

O minuto Herrera

Num ano de merecimentos emocionais, o golo tinha de ser dele. Num ano de mistica recuperada, o golo tinha mesmo de ser dele. Patinho feio desde que chegou, criticado muitas vezes (justamente em muitos momentos, injustamente noutros, por mim o primeiro, em ambos casos), Hector Herrera marcou o que pode ficar para a história do futebol em Portugal como o golo do título de 2018. Além da estética do golo, da importância do mesmo e do minuto em que foi conseguido, no disparo vitorioso de Herrera houve um resumo desta temporada do FC Porto. Patinhos feios, criticados justa e injustamente (por mim o primeiro, em ambos casos), os azuis e brancos deram um golpe na mesa que define bem a viragem de atitude deste projecto. Um projecto que conseguiu repetir a proeza de Vitor Pereira, com uma escassez de meios atrás, sem apoio da instituição, e que está agora mesmo a dez pontos de ser campeão nacional pela primeira vez em meia década.

O FC Porto foi um justo vencedor num jogo equilibrado onde cada equipa foi melhor numa parte mas em que se percebeu claramente que só uma estava disposta a tudo por ela.
A primeira parte do Porto foi fraca. Não foi, ao contrário da excursão de Lopetegui, uma rendição. Foi um reflexo das limitações do modelo, dos jogadores e da pressão do momento aliada á vontade do Benfica, a jogar em casa, de querer fechar as contas cedo. O jogo largo do Porto, apostado na velocidade de um recuperado Marega, falhou quase sempre porque não só o maliano não foi capaz de gerar superioridade como, quase sempre as segundas bolas acabavam nos pés dos encarnados que tinham assim o controlo do esférico e dos momentos do jogo. Não surpreende por isso que nos primeiros 45 minutos as oportunidades e os ritmos de jogo fossem deles. O Porto dedicou-se, sobretudo, a manter-se vivo, a competir, a dar a cara e a esperar melhores momentos. Notou-se algm nervosismo e desacerto mas nunca medo ou pânico perante um rival empurrado pelo estádio.
O segundo tempo foi outra conversa. Despidos os receios, temores e respeitos pelo cenário e pela tensão do momento, os jogadores do Porto foram jogador à Porto e cresceram centimetros. A equipa entrou a querer mais bola - algo que na primeira parte nunca sucedeu - e a marcar os ritmos do jogo, criando muito mais perigo e vulgarizando um Benfica que demonstrou, outra vez - pela enésima vez - que no terreno de jogo não tem argumentos para estar na posição onde outros, fora dele, o colocaram.
Se bem que houve oportunidades para cada lado, ficou claro que o grande perigo do Porto vinha dos seus próprios erros. Sérgio Oliveira continua a demonstrar que a situação o supera. Não só levou um primeiro amarelo a cortar um ataque por culpa de uma perda infantil num lance ofensivo, como depois se dedicou a perder bolas e a fazer faltas, alheado do ritmo à sua volta. Otávio e Soares também passaram pelo mesmo processo, Brahimi continuou a navegar demasiado só e nem Telles nem Ricardo estiveram acertados nas subidas. Ainda assim, o Porto dominava, criava perigo, sobrevoava o ritmo de pausas sucessivas imposto pelo árbitro e crescia, ainda que quase sempre sem criar aquele momento decisivo de perigo à baliza de Varela.

Foi então que as mexidas no banco denunciaram as ambições de cada treinador. Vitória recuou no terreno de jogo e com Oliver, Aboubakar e Corona o Porto deu novo passo em frente. Se o espanhol foi importante para libertar Herrera - sempre pendentes dos desacertos de Oliveira - já o mexicano voltou a decepcionar (é um dos piores jogadores na toma de decisão da história recente do clube) e Aboubakar, fiel à sua forma recente, esteve alheado do jogo desde o primeiro momento. O tempo passava, o Porto procurava oportunidades e só os problemas habituais do modelo - a falta de jogo interior, a insistência em procurar o cruzamento - parecia impedir a chegada do golo. Mas como ás vezes o futebol sim sabe ser justo, o esférico encontrou o seu caminho ao sitio certo. Não foi um golo merecido apenas pelo jogo de hoje mas, sobretudo, pelo jogo no Dragão - e a sua penosa arbitragem - e por todo o ano. Uma jogada interior provocou uma falta por assinalar - mais uma - sobre Brahimi e a bola sobrou para o capitão Herrera. Bem longe ainda da baliza de Varela, o mexicano endossou um remate espantoso que adormeceu no canto superior direito da baliza de uma forma autoritária e decisiva. Foi o golo de todos nós. O golo do homem a quem todos, em algum momento, não hesitamos em criticar e que neste modelo de Conceição se sente como peixe na água. Foi o minuto Herrera. Um minuto que, se tudo correr bem até Maio, nunca nenhum de nós vai esquecer.



Não há nada que celebrar ainda, por muito que a lágrima escorra pelo canto do olho pela importância do momento. São quatro finalissimas, quatro jogos de final de Champions e Mundial juntas que ficam por disputar. Sabendo bem quem é o Benfica e como funciona o futebol em Portugal a margem de erro é absolutamente nula. Não se pode repetir a desastrosa sequência de Paços-Belém nas saídas ao Funchal e Guimarães. As duas vitórias em casa são mais do que obrigatórias, frente a Setúbal e Feirense, sem dar nada por garantido, mas esses dois jogos fora têm todos os condimentos de ser determinantes. Graças ao triunfo que deu a liderança e o goal-average particular frente ao Benfica, o Porto pode ceder um empate mas nada mais. Melhor directamente apontar alto, aos doze pontos, e deixar as celebrações para a visita a Guimarães. Até lá aguentemos a respiração e respiremos fogo. De Dragão.

#NosVamosGanhar

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Guia de rota para a Luz



Vencer na Luz tornou-se praticamente uma obrigação. Um empate – como sucedeu em 2015 – dará sempre alguma esperança correndo o risco de prolongar a agonia desnecessariamente. Quem viu o jogo em Setúbal percebe perfeitamente o que nos espera. O Benfica vai somar todos os pontos que necessite, da forma que seja necessária e contra quem seja necessária. Os que pensam que Alvalade pode provocar uma hecatombe é não conhecer nem o Sporting, nem o estado actual quase esquizofrénico naquele balneário e a história recente de ambos duelos. A isso há ainda que somar que viajar ao Funchal e a Guimarães, duas deslocações altamente complicadas onde não vai haver jokers e ajudas extras. Isso faz do jogo da Luz o santo gral da temporada.

Ironicamente este FC Porto está muito mais formatado para vencer na Luz do que propriamente para triunfar nos campos em que tropeçou. O modelo de Conceição necessita de espaço e na Luz haverá bastante espaço. Se o jogo da primeira volta deu pistas (e eram tanto outro Porto, muito mais dinâmico, e outro Benfica, muito menos em forma) é que o Porto de Conceição sabe os pontos a explorar e sabe como lá chegar. O problema, no caso da Luz, não será tanto o modelo de jogo como noutros casos, mas sim de mentalidade e condição física.

O último mês deixou claro que houve um claro abaixamento fisico do plantel. Por um lado as lesões – um record de lesões musculares que há que explorar a fundo à posteriori com quem de direito – quebraram o ritmo competitivo de muitos jogadores que estavam em forma, sobretudo no caso de Soares e Aboubakar. Por outro a sobre-explotação de futebolistas como Brahimi acaba por ter consequências e contar com o melhor jogador do plantel num estado de forma em que está era previsivel desde há vários meses. Brahimi, historicamente, é um jogador que se apaga nos últimos meses do ano mas com este modelo de pressão alta e maior verticalidade o desgaste é superior e o resultado está à vista. Num plantel efectivamente curto houve pouca margem para fazer gestão mas não é menos certo que em muitos jogos resolvidos Brahimi foi um jogador raramente poupado cedo. Partindo ainda para mais do principio que Oliver não conta e Otávio além das lesões é um jogador de altos e baixos, é dificil imaginar que a criatividade venha de outro lado no terreno de jogo. E com Brahimi assim é de esperar, sobretudo, menos criação e mais verticalidade. E essa verticalidade podia ser até uma boa opção não fosse o caso de que o Porto tem provavelmente o avançado que mais oportunidades necessita para anotar (Aboubakar) e um jogador, Soares, que teve dois meses bons de competição em sete. Na ausência previsivel de Marega e o hábito de Conceição de procurar um Marega II, a verticalidade vai procurar explorar o plano de sempre com caras novas.

Ricardo é o candidato principal a extremo direito (a ausência de Corona e o facto de Hernani não ser um futebolista profissional, ajuda) com Maxi a ocupar a posição de lateral. O modelo já foi testado vezes suficientes para entender que é algo que o técnico não vê com mais olhos, procurando um jogo mais interior de Brahimi na associação com Oliveira e Herrera, deixando a Telles todo o corredor. O problema é que neste estado de forma actual, integrar a Herrera e Oliveira a responsabilidade absoluta do meio-campo é um convite ao desastre. Herrera, que tem sido fundamental em 2018, tem perdido influência no jogo porque o estado de forma, físico e animico,  actual de Oliveira o obriga constantemente a realizar correções em campo. Danilo fará mais falta do que nunca e face esse cenário, podia ponderar-se uma mudança de esquema, uma aposta no 4-3-3 com Reyes como pivot defensivo (ou Oliver a reforçar o miolo) que garantisse controlo e menos vertigem. Tendo em conta a mentalidade de Conceição, a dinâmica actual e a necessidade de ganhar sim ou sim é complicado antecipar que o técnico vai mudar agora. Morrer com as botas postas e o esquema preferencial na cabeça do treinador faz todo o sentido e no final será provavelmente o resultado a ditar a razão das escolhas de Conceição.

No entanto, talvez até mais que o físico, o trabalho fundamental desta semana do técnico com o plantel tem de ser a nível mental. Chegamos a um ponto onde ficou claro que o Porto, este Porto, tem um deficit de títulos e vitórias importantes nos últimos quatro anos e os nervos, a tremideira de cruzar a ponte, como diria o mestre Pedroto, faz-se sentir. É um balneário sem referências, com poucos ganhadores com títulos na sua carreira e nenhum deles com a camisola do clube. Do outro lado está uma equipa habituada a ganhar em piloto automático (como nós sabemos) mas em duelos directos isso habitualmente faz toda a diferença. No último mês, depois do golpe na mesa que foi a segunda parte contra o Estoril e a vitória contra o Sporting, aos jogadores (e ao treinador) entrou a vertigem, entrou o medo e entrou a insegurança, resultado da falta dessa cultura de vitória. Dessa cultura à Porto alimentada durante tantas décadas. Mais do que o 443, mais do que o estado fisico, Conceição terá de recordar todos os seus brilhantes triunfos como jogador e injectar essas memórias, esse à vontade e querer, nos jogadores para subirem ao relvado da Luz sem complexos, sem medos e com a atitude desafiante e determinante que separa os “candidatos a” dos “campeões”. Se esse trabalho não for feito será muito dificil que o resultado final seja positivo.

Depois da Luz, segundo o resultado, a época fica em suspenso. Portanto nem vale a pena pensar sequer nisso. Há três pontos para ganhar e só três pontos para ganhar. Três pontos a ganhar à Porto. Três pontos mentalizados à Porto. Três pontos. Não há mais. Não há menos. Que venha o apito inicial.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Sete meses ao lixo

Em Agosto ninguém imaginava que o FC Porto podia realmente lutar pelo título. Ninguém imaginava chegar invicto a Março. Chegar com a faca e o queijo na mão ás últimas sete jornadas. Em Belém, depois de uma noite de tempestade em Paços de Ferreira, sete meses de trabalho e ilusão foram deitados ao lixo. O FC Porto entrega de mão beijada a liderança do campeonato com seis pontos perdidos em três jogos, perdidos por culpa própria em multiplos sentidos. Sobretudo perdidos por Sérgio Conceição. O homem responsável por sete meses de sonho foi também o principal responsável por dois tropeções que podem vir a ser decisivos.

Todos sabem que o importante é liderar no último dia.
Não é por casualidade que o último FC Porto campeão nacional, quando já estava o Polvo montado, ainda que não tão bem oleado, chegou à liderança a 90 minutos e meio do final do campeonato. Liderar durante todo o ano um torneio viciado para depois entregar essa liderança por motu próprio no sprint final só aprofunda a decepção. É isso que o FC Porto tem feito. Por um lado era inevitável. Por um lado só há campeonato a estas alturas porque o Polvo o quis, como sempre se soube que ia passar. Houvesse algum tipo de vergonha ou justiça, conceitos alheios ao futebol português, o campeonato estaria decidido há semanas. Mas não há e todos sabem que não haverá. Por muito que se revele, por muito que se investigue nada passa. Nada sucede. Nada. Absolutamente nada. E por isso mesmo a luta segue e nesse contexto aparece o segundo elemento inevitável para esta perda da liderança: a falta de ideias de Sérgio Conceição.

Foi confrangedor ver o FC Porto em Paços. Foi igual de doloroso vê-lo em Belém. E não foi tão diferente de vê-lo em várias saídas. Quando não há espaços, quando o motor já está gripado depois de tantos jogos acumulados, vêm ao de cima as carências, tanto do corpo técnico como dos jogadores. O paradigma Conceição (como o de Jesus) assenta num inicio de época forte, um modelo muito fisico, vertical e reactivo que chega ao final do ano sem folêgo e plano B. Assim perdeu Jesus quatro títulos e assim vai perder Conceição o primeiro. Não existe, nem tem sequer havido sensação de existir, um plano B. Não há Marega, que permitia o modelo funcionar pelas suas caracteristicas, mas continua a procurar-se no plantel o que não existe, um Marega II, com um modelo similar mas sem as ferramentas certas. Entre isso e que os jogadores chave do modelo estão mortos fisicamente (Brahimi) ou estiveram/estão lesionados e sem ritmo (Alex Telles, Danilo, Soares/Aboubakar) e fica fácil entender que um treinador de nivel alto procuraria um plano alternativo que potenciasse o que tinha para potenciar e ao mesmo tempo procurasse surpreender os rivais que já sabem de memória como a sua equipa joga. Conceição não tem esse perfil.
Chegou a Belém com dois laterais direitos porque não havia Marega. Chegou a perder ao intervalo e com péssimas sensações e não alterou nada até dez minutos depois do inicio do segundo tempo e ainda assim as mudanças foram de peças, não de ideias. Bolas pelo ar, bolas paradas e pouco mais. Nada mais. Nem toque e pausa (Oliver), nem um defesa por um jogador de meio-campo para gerar mais espaço (Danilo por um desastre chamado Osorio). Nada. Pura e simplesmente esperar por uma inércia que há um mês que não existe porque não há forças nem rivais dispostos a ceder os espaços que fizeram o modelo funcionar.

No fundo o Porto que cai em Lisboa e que cai na Liga é exemplificado por Sérgio Oliveira.
Num jogo horrivel do médio, com uma absoluta lentidão de movimentos, imprecisões no passe e sem nenhum critério, Oliveira foi em Belém, como tem sido no último mês, o jogador que é na realidade. Ao entrar numa dinâmica ainda positiva, substituindo Danilo mas numa equipa ainda com todos os titulares, Oliveira cresceu com o grupo mas o certo é que foi o grupo perdeu força e peças e Oliveira vulgarizou-se a ponto de voltar a ser o jogador que é e sempre será. E como ele os casos podem ser repetidos em vários outros jogadores que potenciados por uma ideia colectiva parecem muito superiores que o que são individualmente.
Esse foi o mérito de Conceição durante sete meses, o de esconder vergonhas individuais numa grande dinâmica colectiva e o seu demérito é, precisamente, o ser incapaz de emendar e entender que o modelo está gasto, que algumas das peças estão gastas e que é necessário aplicar um plano B com mais critério, lógica, gestão de bola e de esforços para impor uma superioridade sobre os rivais que é real - porque este Porto não é um grande Porto mas não é inferior a nenhum outro clube na liga na realidade. O Porto com Conceição nunca deu esse passo afirmativo, sempre procurou ser reactivo e quando se lhe pediu ser autoritário desde o controlo, perdeu o norte e com ele perdeu tudo o resto.

A derrota mais do que merecida em Belém pelos erros individuais na defesa, na construção de jogo e na execução ofensiva expõem a realidade e deixa um sabor muito amargo. Vencer na Luz torna-se obrigatório mas ao mesmo tempo torna-se fundamental fazer a pontuação máxima nos restantes jogos. Algo que há um mês parecia possível pela dinâmica que existia e que agora, sinceramente, com a forma de trabalhar de Conceição e as limitações fisicas e mentais dos jogadores cada vez mais evidentes, parecia altamente improvável. Depois de uma pausa que parecia ajudar o FC Porto mais do que a nenhum outro clube, pela recuperação de peças importantes, foi possivel entender que Conceição não entendeu nada do que estava a passar no mês anterior. E isso é o pior sinal possível para o mês de competição que falta.

Por fim uma adenda fundamental.
Conceição e os seus fizeram os adeptos sonhar e caindo caimos com eles porque não podemos abandonar no desespero quem deu ilusão. Isso não se aplica no entanto a um dos principais responsáveis pela situação presente a dia de hoje: Jorge Nuno Pinto da Costa.
Um ano mais a direcção do clube faltou ao escudo, aos adeptos e aos profissionais.
Faltou forçando a intervenção da UEFA que manietou e muito a gestão do plantel.
Faltou calando, calando e calando num ano não só gravissimo a nivel de arbitragens, com o VAR ao barulho, como calando, calando e calando, quem de direito, na denuncia mais grave da história do futebol português.
Nunca o FC Porto precisou tanto de um Presidente vivo. Activo, vocal, feroz, preparado a matar e a morrer pelos seus, fazendo tremer os cimentos do futebol português depois de se fazer evidente o estado putrefacto em que se encontra. Nunca o FC Porto teve um Presidente tão mumificado. No final, sem ter tido um só percentil de responsabilidade na ilusão positiva criada, tem muita da responsabilidade neste cataclisma inesperado que se anuncie. O FC Porto é um clube centenário e com memória. E a memória destes anos é tão importante como a dos anteriores. E é uma memória marcada pela estupefação, pela decepção e pela forma como tudo o construido foi destruido pelos mesmos protagonistas. E com o mesmo resultado, uma nova hegemonia do Polvo frente ao Porto que se comporta como quando eramos "bons rapazes".

terça-feira, 20 de março de 2018

SMS do Dia

6 milhões de adeptos e não há um - UM! - que tenha "tomates" para fazer uma denúncia em nome próprio. E como tal, recorrem a denúncias anónimas. 6 milhões de covardes.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Depender de nós mesmos

A vantagem de um tropeção importante, desses que deixa sangue nos joelhos e as mãos feridas, é que acontece precisamente quando por primeira vez o FC Porto dependia apenas de si mesmo para cair e poder levantar-se sem deixar nunca de depender de si mesmo. A reviravolta em Estoril permitiu ter este colchão. Muitos - a começar pelos rivais - contavam com esse tropeção para que o Porto chegasse ao jogo com o Sporting já com a liderança efectivamente em risco mas depois de superados os leões, a rasteira veio precisamente onde era mais previsivel que chegasse. Não é por acaso que este Porto tem um padrão claro de sofrimento este ano, fruto das decisões tácticas de Sérgio Conceição.

Vila das Aves, Santa Maria da Feira, Moreira de Cónegos, Estoril e agora Paços de Ferreira. A casa dos últimos, dos que vão sofrer até ao fim, e também campos pequenos, sem espaços, perfeitos para equipas que montam o autocarro, perdem tempo desde o primeiro instante e roubam ao FC Porto aquilo que o alimenta, o jogo de transição ao espaço. Conceição tropeçou contra a mesma pedra várias vezes. Estes foram os piores jogos do Porto em todo o ano e sempre com o mesmo padrão de comportamento - tanto no 11 escolhido, nas alterações e na forma de jogar. O caso do Estoril foi especial (45 minutos como há muito não se via) e frente ao Feirense houve uma dose de eficácia inesperada mas nos restantes cenários perderam-se sete pontos que são aqueles que mantêm o campeonato vivo. Ninguém pode exigir ao Porto - ou a qualquer outro clube - ser perfeito e ter vencido esses três encontros basicamente era o mais próximo a ser perfeito que a liga portuguesa tinha visto em muito tempo mas o certo é que o preocupante passa pelo facto de ser sempre o mesmo cenário e sempre o mesmo resultado o que demonstra escassa aprendizagem. Havia muitas baixas importantes, sem dúvida, mas nunca houve futebol nem uma ideia de jogo coerente e eficaz para as condições em que se disputou o duelo. Debaixo de um diluvio e de um vendaval, com o campo enxarcado desde o primeiro instante, o Porto jogou exactamente como joga num fim de tarde tranquilo no Dragão. Manteve jogadores tecnicistas mas com pouca incisão (Corona), optou por usar o jogador mais parecido a Herrera (mas muito pior) quando a condução com o esférico era impossível e apostou tudo num jogador, Waris, que tem tudo o mau de Marega e nada do bom. Foi o jogador que menos contribuiu para o jogo, com mais perdas, menos passes e com uma relação com a bola nefasta. Foi jogar com um menos desde o início tendo a Gonçalo no banco e sabendo, desde o primeiro momento, que Aboubakar não só não recuperou a boa forma prévia à lesão como é um reflexo ofensivo deste Porto, um jogador que precisa de muitas oportunidades para marcar.
Porque sim, apesar de tudo, tal como nas Aves, Feira ou Moreira de Conegos o Porto criou ocasiões suficientes para dar a volta ao golo irregular do Paços mas como sempre tem sucedido o ratio de eficácia é extremamente baixo. O Porto é uma equipa ofensiva, de tração dianteira mas a quem custa marcar como a nenhum outro e ontem os disparates de Aboubakar, Waris, Brahimi e Hernani - só para dar alguns exemplos - foram evidentes e reflexos de histórias parecidas.

Entre essas oportunidades esteve o penalti falhado por Brahimi, o momento chave do jogo.
Brahimi não é um especialista, acertou metade dos remates que tentou na sua passagem pelo Porto, e é um jogador macio para estes momentos. Também não era o homem escolhido por Conceição. Foi visivel na televisão e audivel na rádio que Oliveira foi o escolhido para anotar a grande penalidade mas por um motivo que só ele sabe, deixou Brahimi ficar com o peso da responsabilidade. Num plantel sem grandes especialistas é importante partir para os jogos com as coisas claras e os marcadores muito bem definidos. O passo atrás de Oliveira foi um péssimo sinal de caracter e o erro de Brahimi esperado e consequente com o desnorte emocional de uma equipa frustrada pelo anti-jogo do Paços (um recorde seguramente) mas também pela falta de um plano B. Até ao final do jogo o Porto tentou sempre a mesma jogada mas Dalot (ainda) não é Telles e os seus centros não fazem a diferença do mesmo modo que faltou altura e bom jogo de cabeça para explorar tantos cruzamentos ao mesmo tempo que faltou calma e frieza na hora de gerar as jogadas (as que Herrera, Oliver e Danilo sempre têm e que ontem fizeram muita falta ao colectivo) de ataque.

O Porto mereceu perder o primeiro jogo do ano porque jogou mal, desaproveitou muito, não soube adaptar-se ao ritmo do jogo e ao terreno de jogo e falhou um penalti tão claro que nem Bruno Paixão pôde não apitar. Mas que equipa chega á jornada 26, sofre a primeira derrota e só tem dois pontos de avanço de um segundo classificado levado ao colo há meses por um Polvo que a cada dia é destapado um pouco mais? Até ao dia de ontem só o Barcelona de Messi se mantinha invicto nas ligas europeias de elite (actualmente só o Lincoln Imps de Gibraltar também está sem ser batido no seu campeonato) mas enquanto os catalães sacam oito pontos de avanço ao segundo, a impunidade que grassa em Portugal permite ao segundo classificado depender apenas de si próprio para ser campeão. O que há que reter desta noite nefasta é que as próximas deslocações fora do Dragão vão ser contra rivais (e em campos) diferentes daqueles que têm custado pontos e que continuam a faltar oito vitórias (ou sete e um empate na Luz, como queiram) e que apenas se perdeu um match point dos nove disponiveis. A brilhantez do trabalho do plantel continua sem merecer a mais minima critica e ninguém seria capaz de imaginar que o FC Porto fosse cair apenas pela primeira vez a esta altura do campeonato. A cada dia que passa estão também mais perto de voltar os lesionados (Alex, Danilo e Soares, sobretudo) e a cada dia que passa novas revelações vão dando ainda mais valor ao que está a ser logrado em campo por um clube totalmente condicionado fora dele. No fim de contas, o Porto sai deste fim-de-semana como entrou. Apenas a depender de si mesmo. Que seja assim até ao último jogo do ano!

quinta-feira, 8 de março de 2018

A rede subterrânea do slb

É impossível representar, num só esquema, a totalidade da rede subterrânea que os dirigentes do slb montaram, paulatinamente, ao longo da última década (de 2007 a 2017).
Contudo, o esquema seguinte, publicado no jornal O JOGO de ontem (07-03-2018), dá uma ideia dos “tentáculos” e das áreas, dentro e fora do futebol, abrangidas por essa rede de informações, influências, troca de favores e corrupção.

Paulo Gonçalves e a "rede" (clicar para ampliar)

Esta rede tinha (tem?) de tudo: árbitros, ex-árbitros, vice-presidentes do Conselho de Arbitragem, observadores de árbitros, delegados da Liga, elementos das comissões de Disciplina e de Justiça da FPF, elementos do TAD, elementos do Instituto de Gestão Financeira e Equipamento da Justiça, empresários de futebolistas, etc.

Perante tudo aquilo que veio a público ao longo dos últimos meses;
Perante tantos factos envolvendo a cúpula dirigente do slb;
Perante os gravíssimos indícios (para dizer o mínimo), de que os últimos campeonatos terão sido adulterados por ação de elementos desta rede, não há consequências?

Até quando, o presidente da Liga, o presidente da FPF e o Secretário de Estado do Desporto irão continuar a assistir a este espetáculo indecoroso, de braços cruzados e a assobiar para o lado?

sábado, 3 de março de 2018

Oito vitórias...

Não quero saber de tropeções alheios e estou preparado para aceitar tropeções próprios, mesmo no pior cenário. O que sei, apenas e só, é que o FC Porto está matematicamente a oito vitórias de ser campeão nacional. Podem ser 7+1 empate na Luz, podem ser 6+2 empates do Benfica, podem ser até 5+6 pontos perdidos do Benfica em tantos jogos. Tanto me faz. Este Porto vive jogo a jogo e é assim que tem de continuar a viver nos próximos dois meses. São oito triunfos para fechar em casa, com os Dragões, frente ao Feirense, um título que ontem ficou, mais uma vez, claro que tem tons azuis e brancos já escritos. Tudo pode passar até Maio mas nenhuma equipa tem sido melhor, mais competente e mais querido vencer que o FCP de Conceição. Mesmo numa noite de escasso mérito futebolistico tudo o resto fez a diferença e além de atirar o Sporting para fora da luta, praticamente, logrou-se reforçar uma sensação de invencibilidade emocional que nestes momentos conta mais do que tudo.

Há duas formas de olhar para o Clássico de ontem no Dragão mas apenas uma conclusão: o Porto tem sido sempre melhor, no cômputo geral, nos duelos com todas as equipas nacionais este ano. É o quarto duelo com os leões - falta um, igualmente importante porque a Dobradinha pode e deve ser objectivo - e uma vez mais ficou claro que o Sporting nunca conseguiu ser superior. Foi melhor, em momentos do jogo, mas superior nunca. Nunca o tem sido como não foi o Benfica no jogo do campeonato nem qualquer outra equipa. Num torneio claramente nivelado por baixo em talento individual e colectivo o Porto tem sabido fazer das suas fraquezas forças e entendido a natureza cada vez mais evidente do futebol luso, para o bem e para o mal. O que nos leva a ver o duelo de ontem de duas perspectivas diferentes mas forçosamente complementares.



Por um lado não se pode dizer que tenha sido um bom jogo. Foi emocionante, tenso mas fraco. O Porto jogou pouco e durante alguns momentos do choque foi superado. É uma equipa que lhe custa muito, muito controlar os jogos, parar os jogos, adormecer os jogos. Vive na vertigem. Conceição foi apresentado e já se sabia da sua boca que era homem de preferir o 1-0 ao 4-3 e que o 4-3-3 era um modelo historicamente ligado ao clube com o que se identificava. Não procurou nem uma coisa nem outra todos estes meses, para o bem e para o mal. A equipa joga, quase sempre, um 442 ou 424 de peito aberto exposto no meio-campo e demasiado dependente da velocidade das transições, e apesar de ter uma boa defesa permite aos rivais mais oportunidades do que seria desejável. Quando esses rivais têm nível - leia-se Liverpool ou até mesmo o caso do Bessiktas - pode sofrer e muito a ousadia. Quando em causa está o nivel médio do futebol português actual a coisa muda de figura. Conceição não inventou nada. Em 2009 Jesus chegou ao Benfica com essa mentalidade. Excluindo (se é que isso é possível) factores extra-desportivos, aquele seu onze era o que Conceição procura hoje mas com uma qualidade individual muito superior á que dispomos e sempre com jokers para momentos de aperto que já conhecemos. Mas durante uma década o futebol português converteu-se nisso. O 433 inteligente de Vitor Pereira salvou-se por um milagre mas as restantes equipas campeãs sempre procuraram modelos similares e Conceição, inteligentemente, fez o mesmo. O que isso provoca são jogos como os de Portimão, na maioria dos casos, o que dá os números ofensivos que nos levam aos dias de Robson, mas também jogos como ontem, contra rivais de outro nível, onde se sofre muito porque não há rotinas de posse e não há uma coesão táctica no meio-campo que permita respirar. Também essa exigência fisica constante tem dois efeitos colaterais importantes. Exilia a jogadores inteligentes e influentes mas sem esse ritmo - caso de Oliver Torres mas, como se depreende das palavras de Conceição, do próprio Paciência - e leva ao limite do desgaste físico os habituais titulares. O histórico de lesões musculares de este ano não pode surpreender quando se exige tanto fisicamente aos jogadores que não param em nenhum momento e que são apenas humanas. Marega foi a última vitima, um jogador que nem sequer foi alvo de rotação mesmo quando a equipa vencia com tranquilidade vários jogos, e o melhor exemplo dessa cultura. Com dois meses pela frente ainda e o lote de lesionados a tender a aumentar progressivamente á medida que o cansaço sobe esse será um importante ponto a gerir.

De facto ontem o Porto foi superior mas não foi uma grande equipa. Raramente houve triangulações, saídas a jogar em colectivo, trocas de bola largas. Não. Houve precipitação - sobretudo na linha defensiva, sempre nervosa a aliviar bolas que a segunda linha do Sporting quase sempre recuperava por superioridade númerica - e pouca paciência. Os golos nasceram de um lance de bola parada mal defendido e de dois momentos de grande inteligência individual, de Maxi Pereira que viu Herrera só, com tempo para colocar um centro tenso e perfeito, e também de Gonçalo, que soube colocar a bola no momento certo e no local certo para que Brahimi, com a frieza das estrelas, acabasse com a malapata de não anotar em jogos grandes. Houve ainda três oportunidades - um lance confuso na área que Marega não aproveitou, o remate sem força mas com intenção que antecedeu a lesão do maliano a uma saída de Rui Patricio e a brilhante corrida de Dalot que terminou com um disparo precipitado de Paciência - mas fora isso a produção ofensiva foi escassa e defensivamente a equipa mostrou-se insegura em muitos momentos, cedendo faltas desnecessárias - sobretudo Felipe - e permitiu um golo que deixa louco qualquer treinador. Pela perda da bola em zona central (Brahimi), porque nem Oliveira nem Herrera souberam apertar Ruiz e porque entre dois centrais demasiado espaçados, Leão soube encontrar com comodida o espaço para disparar sem pensar e colocar a bola debaixo das pernas de Casillas (que pareceu Baía em alguns momentos ontem, para o bem e para o mal) num remate que surpreendeu o espanhol, que mais tarde se resserciu brilhantemente com uma defesa espectacular a Montero. Entre essa defesa e o remate isolado de Leão (fosse Dost e seria outra conversa seguramente) e não se pode dizer que o Sporting não tenha gerado ocasiões suficientes para merecer mais. Mostrou querer mais em muitos momentos e foi um digno rival, mas também ficou vivo demasiado tempo porque, inexplicavelmente, Conceição continua a acreditar em Corona. O mexicano vai seguramente entrar na história como um dos piores investimentos do clube. Um jogador que toma sempre mal a decisão que tem de tomar, seja no passe, no controlo ou no remate. Esforçado mas trapalhão, rápido mas sem aproveitar os metros que ganha e sobretudo incapaz de ser pro-activo no passe ou no remate, Corona só contribuiu com os seus erros a fazer um jogo que devia ter sido controlado num encontro de carrinhos de choque. O jogo pedia claramente Oliver mas a lesão de Marega levou Conceição a colocar Reyes (antes já Aboubakar, ainda sem ritmo claramente, rendeu Gonçalo) e a meter-se ainda para mais atrás e a expor-se a um ultimo ataque desesperado dos leões. Um ataque que o próprio Dragão ajudou a suster numa noite de ambiente incrivel.



Dito tudo isso, e sabendo que este modelo é o que nos trouxe aqui e a dois meses dificilmente será alterado - outra coisa é o futuro mais distante - não podemos terminar sem deixar de prestar a devida vénia ao trabalho de Conceição. Em Agosto a imensa maioria dos adeptos - portistas muitos, eu inclusive - temiam o pior. Outro ano de seca, mau futebol, jogadores sem nível, entrega mas sem resultados. O plantel era curto e escasso de talento. E Conceição era um enigma. Dizer que o Porto seria lider e disputaria um Clássico decisivo com seis titulares inesperados naquele mês é dizer muito. O Porto foi a jogo com um miudo da equipa B (que futuro terá Dalot se quiser e lhe deixarem na SAD), um dispensado chamado Maxi, um Oliveira que muitos nem se lembravam que existia. Com um hiper-questionado Herrera, com um emprestado repescado com um grande histórico de lesões como Gonçalo e com a epitome de todas as criticas como era Marega. Seis de cinco. E todos eles foram determinantes na vitória. O certo é que este plantel é um milagre com pernas e isso deve-se ao jogador e ao trabalho táctico e emocional de Sérgio Conceição e jamais pode ser ignorado. Sem um cêntimo para gastar, com toda a imaginação do mundo, a cada problema o técnico tem encontrado solução. Sem Danilo há mês e meio Oliveira deu um passo em frente. Sem Telles lançou-se sem medo Dalot e um Maxi com um pé na China aguentou bem a ausência de Ricardo. Casillas voltou merecidamente a marcar diferenças e Herrera, que sofre quando se exige jogar em posse, encontrou neste modelo o paraíso. Soares, perdido completamente em Dezembro agora parece fundamental e Marega vai deixar saudades este mês - quem diria - mas seguramente terá também alternativa milagrosa. Não há, na memória recente, uma história mais bonita que a de este plantel do FC Porto e da forma como está a superar qualquer sonho e expectativa. Todos os adeptos merecem celebrar o título mas, por primeira vez em muito tempo, atrevo-me a dizer que mais do que nós, este título merecem, antes que todos, esses jogadores e essa equipa técnica.

Oito vitórias amigos. Oito...