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Portugal é cada vez mais um país estrangulado e centralista. Os momentos que se vivem no nosso país são extremamente delicados e difíceis para todos aqueles que querem fazer alguma coisa fora da capital do império.Por mais pasquins que Lisboa tenha ao serviço e à promoção dos seus clubes e entidades, vamos continuar a lutar com a dignidade das gentes do Norte, com as gentes deste país, de Norte a Sul, que não se confundem com o poder centralista da capital.O FC Porto está a mais no país que temos, mas é necessário para o país que nós queremos que Portugal seja."
Pinto da Costa, 27/11/2009
Coincidência ou não, estas declarações de Pinto da Costa na Casa do FC Porto de Amarante, foram feitas no mesmo dia em que Manuel Brito, vereador do Desporto da autarquia lisboeta, confirmou ao jornal PÚBLICO a existência de negociações com a Red Bull Portugal tendo em vista desviar a Red Bull Air Race do Porto para Lisboa. Segundo o PÚBLICO, para além da Câmara de Lisboa, os contactos da Red Bull com as entidades portuguesas têm também envolvido o Turismo de Portugal e a Secretaria de Estado de Turismo.
Perante isto, e como seria de esperar, os presidentes das câmaras municipais do Porto e de Vila Nova de Gaia já reagiram: Rui Rio de forma contida e politicamente correcta (a ambição de chegar a líder do PSD e depois a primeiro-ministro a isso obriga) e Menezes sem tibiezas, pondo os pontos nos iis.

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A empresa [Red Bull] tem todo o direito de ir para onde quer. Depois há o financiamento público e para-público de empresas públicas (...) Não estou a falar deste Governo, isto é transversal aos partidos. (...) A seguir às eleições, fomos contactados para saber se estávamos interessados em ter a prova no Porto e dissemos que sim"
Rui Rio, 27/11/2009
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É uma situação escandalosa, o Estado estar a suportar um país a duas velocidades. Não tem nada contra as pessoas de Lisboa, não tem nada contra a Câmara de Lisboa. Tem contra um atitude, mais uma, discriminatória do Estado, que directa ou indirectamente, está a esquecer-se que o Porto é fundamental para o desenvolvimento económico e social do país"
Luís Filipe Menezes, 27/11/2009
Menos soft que os políticos, foi a reacção inflamada de dois conhecidos comentadores e respeitados elementos da sociedade civil portuense:
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O Porto não perdeu, o Porto foi roubado, como de costume. Como já se sabia, porque já no Verão isso foi falado, o Governo resolve subsidiar o Red Bull Air Race desde que seja realizado em Lisboa, no Tejo. O governo de hoje em dia é um governo perfeitamente colonial, que vive concentrado em Lisboa, que concentra todo o investimento em Lisboa e acha que nós somos seus colonos e seus súbditos e portanto não está interessado em investir aqui, principalmente no turismo. Tem-se visto o comportamento do governo relativamente ao fomento do turismo nesta região”
Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto
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O Porto é permanentemente roubado, na medida em que há uma transferência sistemática de impostos dos cidadãos da região, para a capital do Império. Isso é uma lógica que vem de sempre. Já não temos colónias, já não temos Macau, já não temos Timor, já não temos nada desse Império, só que Lisboa continua a funcionar como uma capital imperial. Quer dizer que cada vez que algum projecto com alguma notoriedade, com algum valor para o país, como é claramente o caso do Red Bull Air Race, tinha de haver esta vontade por parte da capital do Império, de nos roubar, penso que é a palavra correcta, esta iniciativa aqui ao Norte. Acho que é uma vergonha"
Paulo Morais, ex-vereador da Câmara do Porto
Desta vez, até o Senhor Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, reagiu: "
esta era uma maneira da região e as duas cidades do rio ficarem mais conhecidas não só em termos portugueses, mas sobretudo, em termos internacionais: falar-se do Porto, de Gaia, do Douro e do Norte".
Era, de facto, uma maneira de promover a nível internacional a marca Porto, Douro e Norte de Portugal, dinamizando o turismo na região, mas está visto que isso não interessa aos governantes deste país. O que é "estratégico" é promover mais e mais eventos em Lisboa, nem que sejam no mesmo dia (veja-se o caso da XIX Cimeira Ibero-Americana e da comemoração do Tratado de Lisboa). Aliás, habituados a que tudo o que se passa em Portugal tenha de ser em Lisboa, há mesmo quem olhe para estas reacções com a altivez e o desdém próprios de quem lida com "provincianos", a quem, de vez em quando, os magnânimos senhores da capital distribuem umas migalhas que sobram dos banquetes na corte. Na sua cegueira, de quem não vê para além do eixo Lisboa-Cascais, ainda não perceberam que a reacção a esta negociata não é uma tempestade num copo de água, mas sim a consequência da gota de água que faz transbordar um copo demasiado cheio.
Depois de uma década de centralismo cavaquista, que meteu a regionalização na gaveta e avançou em força com um modelo de concentração e desenvolvimento unipolar, ostentando a riqueza da nação no Centro Cultural de Belém e na EXPO'98, estamos novamente a assistir a um período em que os recursos do país são sugados para a "capital do Império" e para as mega obras para aí projectadas - aeroporto e terceira ponte. Paralelamente,
verbas do QREN são roubadas ao Norte e canalizadas para Lisboa (graças a um tal efeito difusor ou "spill over") e, como o dinheiro não chega para tudo, a 2ª fase do Metro do Porto foi adiada para as calendas e o TGV irá avançar a duas velocidades (a ligação de Lisboa a Badajoz avança já, enquanto que a do Porto a Vigo ver-se-á quando avançará).
Sócrates e a sua entourage andam a brincar com o fogo. Não devem ter lido, ou se leram não perceberam, o que o jornalista Jorge Fiel escreveu no Expresso, em 13 de Agosto de 2005:
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O grito de raiva «Nós só queremos Lisboa a arder» é a expressão (grosseira) da revolta de quem se sente discriminado. A única vacina eficaz contra esta raiva é corrigir as assimetrias que desequilibram o país."
O problema é que por via da acção de sucessivos governantes pirómanos instalados no Terreiro do Paço, as assimetrias são cada vez maiores. A região rica (Lisboa) está cada vez mais rica e as pobres (Norte e Interior) estão cada vez mais pobres.
«Entalada entre o Suriname e o Brasil, na América do Sul, fica uma das duas únicas regiões dos Quinze países da União Europeia cujo índice de riqueza é mais baixo do que o do Norte de Portugal. Trata-se da Guiana francesa que, a par da zona de Dytiki Ellada, na Grécia (...) são as únicas regiões de países que entraram ao mesmo tempo (antes, no caso francês) que Portugal na União Europeia e que têm um índice de pobreza superior ao nortenho. (...) no início da década, o poder de compra das famílias nortenhas correspondia a 86% da média nacional (a região de Lisboa estava nos 137%); cinco anos depois, quase todas as zonas do Norte tinham maior poder de compra, mas esse ganho foi anulado pelo mergulho de uma só: o Grande Porto.»
in JN,
Dossier ‘Norte em crise’Nada tenho contra os "alfacinhas" e escusado será dizer que não quero ver Lisboa a arder, mas com o
desemprego a alastrar no país e, particularmente, no Grande Porto e com as oportunidades a serem concentradas numa única região, não me admiraria se um dia destes já não forem apenas os Super Dragões a entoar este cântico.