Por Miguel Lourenço Pereira
A chegada de João Moutinho às filas do FC Porto desperta-nos para uma realidade que tem estado adormecida no desértico futebol português. Desértico de ideias. Desértico de jogadas arrojadas, transferências internas, o pão nosso de cada dia em qualquer país, menos no nosso. E também um espelho do que tem sido a realidade dos clubes portugueses, FC Porto à cabeça, com a histórica ligação lusa ao futebol de formação. Um fantasma preparado para assombrar um país nos próximos anos. Se tudo ficar na mesma.
O FC Porto que terminou a última época contava apenas com quatro internacionais A portugueses. Apenas dois deles (Bruno Alves e Raul Meireles) seriam titulares na viagem à África do Sul. E desta vez não houve sequer manobras de bastidores como a que vetou alguns dos nomes campeões europeus de 2004. A realidade é que o português é cada vez menos uma nacionalidade presente no balneário do Dragão. Mas não só.
A performance de Portugal no Mundial deixou claro que o mais grave problema da equipa das Quinas está na falta de opções. De futuro. Jogadores no final da carreira substituem jogadores no final da carreira. Pouco ar fresco, ambicioso e com vontade de encontrar um lugar ao sol. Um cenário que selecção e clubes têm partilhado nos últimos dez anos. Olhar para a formação do FC Porto e descobrir jogadores de primeiro nível tem sido como encontrar uma agulha num palheiro. Falhou a geração dos Ricardo Costa, Hugo Almeida e Helder Postiga. Posteriormente a dos Bruno Gama, Helder Barbosa ou Vieirinha. E agora estamos perante o dilema. Irá o cenário repetir-se com os Ukra, Castro ou Rabiola?
O certo é que Bruno Alves é o único atleta no plantel da época passada que fez a formação no clube. Muito pouco para uma equipa de dimensão mundial, particularmente quando os grandes da Europa começam cada vez mais a apostar na formação (mesmo que seja na última fase) e menos nos negócios milionários que marcaram a década.
Esta situação não é em nada diferente à de Benfica ou Sporting, que tem mais fama do que proveito com a sua “aclamada” Academia, mas é ainda mais grave quando olhamos para os clubes de média dimensão.
Verdade seja dita, a formação em Portugal sempre funcionou melhor fora do âmbito dos “Três Grandes”. O que sucedia, particularmente até ao aparecimento da Lei Bosman, é que estes captavam rapidamente os jovens talentos quando começavam a dar provas do seu valor na liga. Foi assim durante décadas com os jogadores que saiam das verdadeiras escolas que eram o Boavista, Vitória de Guimarães, Leixões, Belenenses, Montijo, Barreirense, Atlético, Marítimo, Braga ou Farense. Daí saíram jogadores que depois criaram um vínculo com um dos grandes, de tal forma que hoje são poucos os que se lembram que a aventura não começou aí. Quem se recorda de que o primeiro clube de Jaime Pacheco foi o Aliados de Lordelo (onde jogou até aos 21), ou que Sousa começou a jogar no Sanjoanense, ou como Futre arrancou no Montijo antes da breve passagem pelo Sporting?
Hoje essa realidade é o verdadeiro deserto. A lei Bosman encheu Portugal de jogadores estrangeiros de qualidade inferior. Não só nos grandes (onde a sua presença é excessiva e notória), mas nesses pequenos clubes, muitos deles hoje em falência por terem precisamente entrado nessa politica de gastos sem lucro. Clubes como a União de Leiria, Nacional ou Farense tornaram-se portas de entrada para jogadores brasileiros colocados estrategicamente por empresários. O mesmo se passou com Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Belenenses... todos eles hoje a viverem os piores anos da sua história.
Abandonando a formação, os clubes deixaram de ter uma politica sustentável. Passaram a viver exclusivamente do empréstimo dos grandes e dos jogadores que estes compravam a pechinchas para depois vender a peso de ouro. Até os jogadores que hoje aí se destacam são mais depressa “sobras” da formação dos grandes (Beto, Varela, João Pereira) do que formação da casa. Uma politica suicida que acabou com o futebol de base da selecção nacional.

Há vinte anos atrás, época em que Carlos Queiroz profissionalizou o futebol de formação português, era impensável que talentos como Tiago Targino e Diogo Lamelas (Vitoria Guimarães), João Aurélio e Edgar Costa (Nacional) ou Manu (Belenenses), Vitor Gomes (Rio Ave) e Yazalde (Braga) vivessem marginados dos onzes das suas próprias equipas, em detrimento de atletas estrangeiros. Mais. Há vinte anos esses seriam certamente titulares e estariam debaixo de olho dos olheiros dos grandes. Jogariam na selecção de forma competitiva (é imensa a diferença de equipas sub-21 e sub-19 com jogadores habituados a jogar ao mais alto nível do que aqueles que vivem no idílico mundo dos “juniores”, ou nos clubes que jogam sempre para não perder) e seriam o futuro do nosso futebol. Hoje são dúvidas mesmo antes de começarem. Ao contrário de Hazzard (belga, estrela do Lille), Berg (sueco, estrela do Hamburgo), Kadlec (checo, estrela do CSKA), Ninis (grego, estrela do Panathinaikos), não há um jovem jogador português que se destaque. Dentro e fora de Portugal. E isso é preocupante!
A principal razão do sucesso vertiginoso desta Alemanha (e desta Espanha, e desta Holanda, e até deste Uruguai) deve-se também à sua actual politica de formação. Das federações mas também dos clubes. São realidades, principalmente no caso holandês, em tudo similares à portuguesa. Mas gerida de uma forma diametralmente oposta. A média de idades dos planteis holandeses é infinitamente inferior à dos portugueses. O número de jogadores nacionais é muito mais alto. Na Holanda também há empresários, jogadores estrangeiros e clubes a disputar provas europeias ao mais alto nível. Mas o futebol é visto com outros olhos, sem o típico oportunismo do dirigismo português, dos escritórios da FPF até às oficinas do Dragão, Luz ou Alvalade.
Seria o ideal que os clubes que simbolizam o que de mais forte tem o nosso futebol tivessem nos seus onzes mais jogadores de formação própria. Mas talvez, mais importante ainda, seria que a segunda e terceira linha das equipas portugueses, hoje endividadas até ao tutano, mudassem por completo a sua postura e voltassem a apostar no que de melhor tem a sua cantera. A futura regra 6+5 pode ser polémica, mas no caso português adivinha-se fundamental para garantir a sobrevivência de um país e de um futebol desencontrados da realidade.
Os portistas podem sonhar com a afirmação de Ventura, Ukra, Castro, Rabiola ou Diogo Viana. Podem até ficar contentes com o sucesso de Bruno Gama, Hélder Barbosa, Vieirinha ou Bruno Vale. São produtos da nossa casa que beberam dos nossos ideais. Mas é preciso lembrar que desde sempre o FC Porto soube misturar o bom produto de formação da nossa escola com os melhores jogadores das pequenas escolas que gravitam à nossa volta. Beto, Varela ou Micael podem ser vistos já como os melhores exemplos desse regresso sadio ao passado. Talvez por isso seja simbólico que João Moutinho, produto da formação sportinguista, tome o testemunho de Raul Meireles, filho da escola boavisteira. Não importa a procedência. Importa a qualidade. A garra. O querer. Isso é a escola à Porto. Isso deveria ser a escola à Portugal!
Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Miguel Lourenço Pereira a elaboração deste artigo.Foto 1: origem desconhecida
Foto 2: Academia de Talentos