Julen Lopetegui foi um erro.
Não vale a pena recordar que
isso foi dito aquando da sua nomeação. Foi um erro então. É um erro agora. A
sua falta de experiência aliou-se, com o tempo, com a sua falta de estofo. Foi
evidente na ausência de características que definem um treinador de nível.
Lopetegui nunca conseguiu criar um estilo de jogo constante e coerente. A
equipa exibiu-se a grande nível na Champions, no ano passado (e no jogo contra
o débil Chelsea, no Dragão) mas na liga nunca convenceu ninguém. O plano A de
Lopetegui era um rascunho e nunca passou disso. O plano B, o C e até o D de
Stamford Bridge foram erros graves. Lopetegui não perdeu o título por ser
incompetente no ano pasado. Num ano normal, sem #Colinho, o FC Porto teria sido
campeão nacional. Mas isso seria apenas natural, inercia de um grande plantel
onde o investimento foi mais relevante do que se quis assumir. Afinal, para um
clube como o FC Porto dos últimos 30 anos o título já surgiu com equipas piores
e treinadores medianos, graças à inteligencia e força de uma estrutura que já
não existe. Mas nem graças a essa inercia Lopetegui driblou os escândalos arbitrais
do ano passado, representado perfeitamente pela sua inoperância nas viagens à
Madeira, no jogo em Belém e, sobretudo, no jogo na Luz onde o Porto que devia
procurar a vitória contentou-se em lamber as feridas do desastre de Munique. O
navio tremeu mas não afundou mas vamos em Dezembro de 2015 e o Sporting – com o
mesmo e sobrevalorizado treinador rival e com um investimento inferior –
continua à frente de um Porto igualmente titubeante e sem ideias. Faltam cinco
meses para acabar a época. Que fazer com Lopetegui?
Para mim – para muitos portistas e para muitos elementos
dentro do clube – a saída do treinador basco é inevitável. Que suceda entre
Dezembro e Junho será, sobretudo, fruto das circunstancias. O projecto falhou.
A culpa não é só de Lopetegui. Que fique claro. O problema é mais profundo e
está uns andares acima na pirámide do clube. A mudança do treinador pode, na
prática, nem sequer mudar nada quando o Porto continuar a enviar agentes
contratados por fundos para negociar em seu nome, a adquirir jogadores sabendo
que não os vais pagar utilizando o clube como montra de exibição para aranhar
um lucro que não é suficiente para evitar sucessivos empréstimos bancários a
instituições misteriosas e, irónicamente, associadas aos mesmos fundos. Num
cenário onde o balneario é uma porta aberta a quem quiser entrar, onde não há
elementos diferenciáas, referências de cordura, espirito de grupo e ambição,
que pode outro treinador fazer? Quando a aposta na formação – lembram-se que
vinha o treinador da excelente, porque era excelente, campeã europeia sub21
para lançar uma série de putos aos leões – continua a estar mais na prática que
no papel porque o plantel se enche de segundas e terceiras escolhas para fazer
negócio, que pode fazer o treinador?
Tudo isso é verdade, seja o homem da “cadeira de sonho” de
todos nós Lopetegui, Vitor Pereira, Paulo Fonseca ou o senhor X. Mas Lopetegui
contribuiu, e muito, para estar na situação emocional com adeptos e jogadores
em que está. Se a conjuntura já não era favorável, o seu trabalho foi nefasto a
distintos niveis e o seu futuro ficou assim comprometido por muitas juras de
amor de Pinto da Costa a jornais espanhóis que ele possa ler.
Os problemas de Lopetegui são vários.
A
conexão com os
jogadores é nula e isso que rodeou o balneario de futebolistas conhecidos numa
das maiores sagas de importação da história do Porto de outro país ou cultura
futebolistica desde os anos da escola de Samba do virar do século.
Tacticamente
já demonstrou ser um inepto a distintos niveis, de treino, de ideia de jogo e,
sobretudo, de adaptar a equipa a todas as circunstancias, positivas e
negativas. Se o Porto se coloca a ganhar, tudo bem. Se o Porto se apanha a
perder, ai Jesus. Se o Porto está empatado, rezem por um milagre porque a luz nunca
virá do banco. Em ano e meio, nunca veio. Lopetegui é responsável disso tudo
mas também conseguiu destroçar o excelente capital de apoio conseguido nos
primeiros meses quando foi o primeiro a insurgir-se contra o #Colinho – com o
clube calado – pela sua
constante falta de auto-critica que já roçou a ignorância.
Há sempre culpados, sempre desculpas, sempre justificações. Só que nunca é nada
com ele. O triunfo da possessão e o azar do golo inaugural do Chelsea parecem
ser, na cabeça do treinador e no seu discurso, a justificação de um dos maiores
desastres tácticos da história do clube. É apenas um de muitos exemplos. Um
problema que não tem solução.
E portanto, que fazer?
1) Ficar com Lopetegui até Maio e começar já a trabalhar no futuro?
2) Despedir Lopetegui agora para encontrar uma solução de futuro com impacto
imediato?
3) Repetir o cenário com Paulo Fonseca e pensar na transição com outro
nome enquanto o futuro se desenha longe do terreno de jogo?
São três cenários que estão sobre a mesa agora mesmo na SAD
e na cabeça de todos os portistas. Nada vai acontecer – salvo que Lopetegui
bata com a porta de forma clara e inequívoca – até ao jogo de Alvalade. Sair
com a liderança da casa do mais directo rival será um golpe de efeito
importante. Qualquer outro resultado (até o empate) é abrir ainda mais uma
ferida com adeptos e balneario difícil de curar. Lopetegui tem de ser
implacável em liga até Janeiro e conseguir demonstrar que tem todos a remar na
mesma direcção para que a necessidade de uma mudança brusca não se torne ainda
mais evidente. Mas claro, quem toma conta do seu lugar?
O clube maneja agora mesmo uma lista de futuriveis com André
Villas-Boas à cabeça. Mas AvB – que já anunciou que a partir de Junho quer
voltar a Portugal – não vai ficar livre até o Zenit cair da Champions League,
ou seja, provavelmente a fins de Março. Outro nome na mesa, Mircea Lucescu, não
irá querer deixar o Shaktar a meio caminho. Mais fácil seria atrair Pedro
Martins, treinador do Rio Ave e outro menino bonito de Pinto da Costa, para
tomar controlo já da nau. O grupo mais associado a Mendes prefere claramente
Nuno Espirito Santo, actualmente desempregado.
Há três nomes falados que estão
fora de qualquer equação. Marco Silva não pode nos próximos dois anos treinar
em Portugal por uma cláusula assinada. Leonardo Jardim não quer voltar a
Portugal e quando sair do Monaco será para a liga espanhola ou inglesa. Paulo
Sousa quer triunfar em Itália e a voltar a Portugal a sua preferencia é,
claramente, assinar pelo Benfica. Todos estes nomes – salvo talvez AvB – difícilmente
entusiasmam os adeptos e apenas dois deles teriam condições para pegar agora na
equipa. Vale realmente a pena entregar de novo o plantel a Luis Castro, depois
da sua (falta) de provas aquando do fim da experiencia Fonseca?
Só com um
cenário insustentável, como foi esse, essa opção pode fazer qualquer sentido.
Com os principais candidatos a estarem livres em Junho, com
Luis Castro como referencia pouco fiável, a permanência de Lopetegui até Maio
tem toda a lógica. Mesmo entendendo que o basco não é um bom treinador – e muito
menos um bom treinador para o clube - o
cenário actual não convida ainda ao drama. O titulo é perfeitamente alcançável
e deve ser, cada vez mais, a prioridade. Há plantel com qualidade suficiente
para ser campeão nacional e o Sporting é um rival que já demonstrou que vive no
fio da navalha na maioria dos jogos. Algum dia terá de tropeçar na sua própria ausência
de ideias. Lopetegui começou o projecto e deve terminá-lo mas não o pode fazer
só. Urge que a SAD tome públicamente uma decisão e apoie o treinador numa
mensagem para tranquilizar os adeptos e, sobretudo, os jogadores. Lopetegui tem
de sentir esse apoio de quem o elegeu, o elogiou e deu tudo o que pedia, e os
jogadores devem saber que por muito que se rebelem, o cenário não vai mudar.
Salvando as distâncias, naturalmente, Pinto da Costa tem de emular a Berlusconi - para bem do clube - quando este baixou ao balneario do San Siro, nas primeiras – e contestadas
semanas de Arrigo Sacchi – disse aos jogadores a mitica frase “o treinador é
escolha mina, foi escolha mina e continuará a ser escolha minha e ficará aquí para
lá do próximo ano…já vocês, não sei!”.
Não há um conto de fadas com final feliz.
A minha sensação
pessoal é que Lopetegui deve ficar por isso mesmo, assumindo (tanto ele como as
pessoas responsáveis pela sua contratação) todas as consequências no final da
temporada, sem que o clube deixe, paralelamente, de procurar um rumo de
sustentabilidade futura com outro homem do leme.
O título de campeão não vai salvar a posição de Lopetegui no
clube e com os adeptos mas pode permitir uma saída menos traumática e menos
negativa para uma instituição que apostou muito nele. Lopetegui foi uma eleição
pessoal de Pinto da Costa e o seu fracasso é também uma mancha no currículo do
presidente que iria no seu segundo treinador consecutivo a sair antes do final
do ano. Seguramente um cenário que quer evitar. Para isso tem de tomar uma
posição, apostar todas as fichas (e reputação) na sua aposta pessoal e fazer
todos os esforços para que o clube até Junho trabalhe na mesma direção mesmo
sabendo que no próximo ano talvez a nostalgia do pasado injecte algo do
optimismo perdido em relação ao homem que ocupe a “cadeira de sonho”.