domingo, 13 de junho de 2010

Fernando Gomes e Angelino Ferreira

Poucos dias após a FC Porto SAD ter apresentado as contas do 3º trimestre 2009/10 e de Fernando Gomes ter sido eleito presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, parece-me oportuno recordar um interessante artigo de Rui Frias, publicado no DN de 06/02/2010, a propósito da passagem de testemunho entre Fernando Gomes e Angelino Ferreira na SAD portista. Neste artigo é traçado o perfil destes dois homens, que vale a pena conhecer melhor, até porque há quem veja neles potenciais candidatos à sucessão de Pinto da Costa, daqui a três ou seis anos.

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Não é propriamente um cinéfilo, mas quando a filha Soraia acabou o curso de Gestão, na Universidade Católica, e foi para Nova Iorque e Los Angeles aprender a gerir produção de cinema, Angelino Ferreira mergulhou no mundo da sétima arte. Ou melhor, no universo empresarial que rodeia as produções de filmes, lançando, em 2005, com a filha, a produtora Yellow Entertainment, que estreou o seu primeiro filme no ano passado - Star Crossed, com cenas filmadas no próprio Estádio do Dragão, completando assim a tríade das grandes paixões de Angelino: empresarialização, família e o FC Porto. O "criador" da SAD portista, diz quem o conhece, é mesmo assim: um homem que se atira de cabeça a tudo o que faz, capaz de encher a casa de livros sobre o assunto que o atrai a cada momento.

A determinação com que se entrega às causas é, apontam, um ponto em comum com o homem de quem recupera agora a pasta financeira da administração da SAD do FC Porto. Principal figura do lançamento da Sociedade Anónima Desportiva, em 1997, Angelino Ferreira passou o cargo, em 2000, a Fernando Gomes, um ex-jogador de basquetebol do clube que na última década foi então o rosto financeiro da SAD do futebol. Agora, inverte-se o caminho: Fernando Gomes abandona todos os cargos no grupo empresarial do FC Porto, alegadamente por divergências quanto ao rumo financeiro da sociedade após as contratações de Rúben Micael e Kléber (esta falhada), e devolve a bola ao "criador".

Fernando Gomes, "o outro Fernando Gomes do FC Porto" - como ficou conhecido desde os tempos de atleta devido à coexistência com o ex-futebolista "bibota de ouro" - deixa o interior do universo portista após quase 40 anos de ligação. Teve um percurso parecido com o de Pinto da Costa, subindo na hierarquia sempre por dentro do clube. Era, aliás, além do presidente, de Reinaldo Teles e de Ilídio Pinto (vice-presidente ligado ao hóquei em patins) um dos dirigentes com mais tempo de FC Porto. Foi no basquetebol que começou, ainda nas camadas jovens. E tornou-se numa referência do basquetebol portista. Fez parte da famosa equipa que tinha o norte-americano Dale Dover, nos anos 70, e acabou a carreira no final dessa década, como capitão da equipa que ganhou dois campeonatos consecutivos na viragem para os anos 80, sob comando do treinador Jorge Araújo, com quem mais tarde se reencontraria, então já como director da modalidade, nos anos 90. "Já era sintomático que fosse o capitão de equipa. Era um atleta muito determinado e enérgico em campo, com uma forma de jogar muito 'nortenha' e uma paixão enorme. E já com uma visível capacidade de liderança, que lhe advinha até da posição em que jogava (no basquetebol, o base é quem lidera todo o jogo da equipa)", recorda o ex-treinador.

Por essa altura, a única ligação de Angelino Ferreira ao FC Porto era apenas a de um jovem adepto entusiasmado com as mudanças em curso no seu clube, nos tempos em que a dupla Pinto da Costa/José Maria Pedroto lançavam as sementes para a hegemonia no futebol português. Angelino formava-se em Economia na Universidade de Coimbra e desde cedo mostrou o seu carácter empreendedor nos negócios. Em 1981, com 26 anos, reabriu a Bolsa do Porto, fechada após o 25 de Abril. E passou lá toda a década de 80, grande parte dela como corretor em nome individual - até 1988 foi, com Maria Cândida, da Carregosa, e Adolfo Brito, um dos três "reis" da bolsa portuense, os únicos corretores em actividade. Foi nesses tempos também que foi construindo a imagem de seriedade e rigor que mantém ainda hoje junto das instituições financeiras, junto das quais teve um papel decisivo na altura da transformação do FC Porto em SAD e, posteriormente, nas negociações para a construção do estádio do Dragão e do centro de treinos em Gaia.

Nuns anos de crescimento selvagem da bolsa portuguesa, que levaria ao grande crash de Outubro de 1987, quando "toda a gente ganhava dinheiro na Bolsa" e Miguel Esteves Cardoso escrevia que "agora já não saímos com a Isabel, a Marina ou a Helena, em vez disso apaixonamo-nos pela Sofinloc, Locapor, Transbel... Em qualquer restaurante só se ouve falar de Sofinloc, Marconi... Está tudo Portloc!", nessa conjuntura desregrada, Angelino Ferreira distinguia-se "pelo seu carácter sempre muito certinho e honesto", conta quem com ele lidou nesses tempos. Numa frase, "o dr. Angelino faz sempre tudo 'by the book'". Esteve depois envolvido na criação das empresas Socifa & Beta e PARS (ligada à Salvador Caetano, Soares da Costa e Tertir), até que na década de 90 chegou então ao FC Porto, primeiro para o Conselho Fiscal e mais tarde para a direcção.

Tal como Angelino, Fernando Gomes também se formou em economia, enquanto jogava basquetebol. Fez o curso na Universidade do Porto e, depois da carreira de atleta, fez um interregno no seu percurso dentro do clube. São-lhe conhecidas passagens pelos grupos SONAE e Amorim, a aposta numa empresa de informática, mas voltou a ser o basquetebol a promovê-lo de novo para dentro do FC Porto, nos finais de 80, quando a secção estava para fechar.
Fernando Gomes "trouxe uma nova dinâmica empresarial para a estrutura do basquetebol", lembra Jorge Araújo. E não só no FC Porto. Foi ele também quem esteve na origem da criação da liga profissional de basquetebol, em 1995, da qual foi de resto o primeiro presidente. Para Jorge Araújo, esse foi "o momento alto do percurso dele". Foram três anos de grande desenvolvimento do basquetebol nacional, que depois disso "nunca mais foi igual" - a liga profissional acabaria mesmo, mais tarde. Isso e o título ganho no primeiro ano da liga profissional, quando o dragão quebrou sete anos de hegemonia daquele Benfica de Carlos Lisboa, em pleno pavilhão da Luz. "Lembro-me de no final do jogo me abraçar a ele e dizer-lhe que ele merecia aquele título", recupera Jorge Araújo.

Discretos e reservados no contacto para o exterior, Fernando Gomes e Angelino Ferreira tentam preservar a vida pessoal. Sabe-se que são da mesma geração - o ex-administrador tem 57 anos e o regressado 56 - e moram até perto um do outro, separados pela rua da Constituição: Fernando Gomes na Praça Francisco Sá Carneiro (popularmente conhecida por Praça Velasquez), bem pertinho do estádio do Dragão, e Angelino Ferreira próximo da praça rainha Dona Amélia. Ambos são também habituais frequentadores do Algarve nas férias e não se lhes conhecem grandes vícios - não fumam nem bebem. "Aliciado" por Adelino Caldeira, administrador jurídico da SAD, Angelino Ferreira ainda tentou umas tacadas no golfe, mas o hobby não terá durado muito.

A nível familiar, ambos são casados com as respectivas mulheres de longa data. Fernando Gomes tem três filhos, dois gémeos e uma filha mais nova. Os rapazes também praticaram basquetebol no FC Porto e um deles, Sérgio, chegou mesmo a jogar nos seniores. A filha mais nova trabalha em Londres, num hospital de crianças, cidade de resto onde também vive o filho mais novo de Angelino Ferreira, Bruno, licenciado em design de comunicação, enquanto a outra filha, Soraia, é então produtora de cinema, tendo estudado alguns anos em Nova Iorque e Los Angeles.

De resto, segundo quem com eles trabalhou de perto no FC Porto durante anos, se no rigor e determinação a SAD azul e branca não deverá registar diferenças nesta nova passagem de testemunho, há traços de personalidade que os distinguem. Angelino Ferreira é "um homem de compromissos, embora inflexível nos princípios" - em 2000, sem que nunca tenha sido confirmado pelo próprio, falou-se que teria saído da SAD por discordância com algumas opções. Tal como agora foi noticiado em relação a Fernando Gomes, um homem de riso até mais fácil do que Angelino Ferreira quando entre amigos, mas mais inflexível nas relações profissionais. "É muito exigente e, às vezes, consegue ser muito duro", contam sobre o ex-administrador, que tem "uma memória de elefante": "Lembra-se do mais pequeno detalhe passado há não sei quanto tempo e joga isso na altura certa". Angelino tem um registo mais tranquilo, "muito reservado, low profile", unanimemente visto como "uma ave rara no meio da tribo do futebol".

No FC Porto, Angelino Ferreira será sempre o homem que "lançou as bases da empresarialização do clube", permitindo o caminho que levou ao grande grupo empresarial que hoje constitui o FC Porto. Por isso, considera um elemento da estrutura portista, "a constituição da SAD será sempre a sua grande marca, mais até do que o estádio ou o centro de treinos, porque foi mais estruturante para o clube. Sem a SAD não haveria depois o estádio".

Já a Fernando Gomes é atribuído um papel decisivo na valorização do plantel em termos patrimoniais e "na consolidação do FC Porto enquanto projecto internacional, com um trabalho de rede muito importante ao nível das relações internacionais, quer ao nível de organismos da UEFA, quer no G-14, por exemplo".
Essa teia de relacionamentos internacionais foi importante, garantem, junto da UEFA na altura em que as obras do novo estádio estiveram paradas devido ao conflito com a Câmara do Porto de Rui Rio, e também no recente período conturbado do Apito Final, perante a ameaça de exclusão das provas europeias. É também por isso que agora se lhe prevê um alto cargo num organismo internacional do futebol, havendo ainda quem o veja a trabalhar com um importante agente mundial de futebolistas e, a médio prazo, como um nome a ter em conta na sucessão de Pinto da Costa. "Corrida" para a qual não se conhece a tendência de Angelino Ferreira, mas da qual também não poderá ser excluído: o regressado administrador é, pelo menos, um favorito junto do importante sector bancário. Para já, neste seu retorno à SAD, retoma o objectivo inicial - garantir o trapézio financeiro que permita manter um FC Porto ganhador.

sábado, 12 de junho de 2010

FC Porto nos Mundiais (II)


João Pinto fez o seu primeiro jogo pela Selecção Nacional no dia 16/02/1983, em Guimarães, perante a França e não se pode dizer que tenha sido muito feliz (Portugal perdeu 0-3).

A partir daí, o lateral-direito portista tornou-se titular indiscutível da equipa das quinas (já o era no FC Porto) e foi um dos pilares da defesa portuguesa no Europeu de 1984, onde os 'Patrícios' surpreenderam e chegaram às meias-finais, tendo apenas soçobrado perante a equipa da casa - a França - nos últimos minutos de um prolongamento impróprio para cardíacos.

Dois anos depois, foi-lhe detectada uma pleurisia, teve de ser internado e não pôde jogar durante vários meses. A sua carreira esteve em risco, mas aquele que viria a ser o capitão de Viena era de antes quebrar que torcer e, mesmo na cama do hospital, sempre acreditou que iria recuperar totalmente e a tempo de ir ao Mundial do México. Para isso contribuiu a sua determinação e umas "ajudas" extra... Um dia, quando o professor José Neto o foi visitar ao hospital, foi confrontado com um pedido sui generis do nº 2 do FC Porto: "Apetecia-me presunto"...

No Mundial do México seria apenas suplente não utilizado, mas isso não o impediu de fazer uma carreira brilhante na Selecção, da qual foi presença habitual durante 13 anos, período em que superou o número de internacionalizações de Bento (63), Eusébio (64), Humberto Coelho (64) e Nené (66), até completar a 70ª internacionalização no seu último jogo, em 09/11/1996, precisamente no estádio das Antas (frente à Ucrânia, 1-0).

Após ultrapassar Nené foi, durante algum tempo, o futebolista português mais internacional de sempre (até ser ultrapassado por Vítor Baía) e ainda hoje é um dos jogadores que mais vezes capitaneou a Selecção Portuguesa - em 42 dos 70 jogos que disputou.

Filomena e o Conselho Cultural


No passado dia 8 de Junho, no Estádio do Dragão, decorreu a posse do Conselho Cultural e do Conselho de Filiais e Delegações do Futebol Clube do Porto para o próximo triénio.

O Conselho Cultural continua a ser presidido por Álvaro Pinto e vai passar a contar com Isabel Pires de Lima, Amândio Secca, Guilherme Macedo, Justino Santos, Fernando Rocha e Fernando Oliveira.
A primeira coisa que salta à vista é que desta lista não faz parte Filomena Pinto da Costa. Ora, em Setembro de 2008, quando foi convidada para directora do Conselho Cultural, aquilo que veio a público é que Filomena iria dinamizar este órgão, passando a ser responsável pela programação extra desportiva e pela organização de eventos (concertos, exposições, lançamento de livros, etc.) envolvendo o nome do Futebol Clube do Porto.
Recordo que, na altura, Álvaro Pinto considerou que Filomena Pinto da Costa era uma mais-valia para o clube e a própria manifestou um enorme entusiasmo com o novo cargo. E agora? Foi Filomena Pinto da Costa que não quis continuar ou entenderam que era conveniente exclui-la?

Para além da criação e direcção da revista Mundo Azul, eu não consigo avaliar o trabalho desempenhado por Filomena Pinto da Costa no Conselho Cultural mas, o que aparenta, é que quer o convite feito há 20 meses, quer o afastamento actual, são mais condicionados pelos altos e baixos do seu relacionamento privado com o presidente do FC Porto, do que pela competência e trabalho desempenhado.


As coisas não são exactamente assim? Muito bem, então, para evitar mal entendidos, seria bom que o senhor Álvaro Pinto, presidente do Conselho Cultural, explicasse o que se passou e que critérios foram seguidos.

Reafirmo o que já aqui escrevi. Nem eu, nem nenhum sócio do Futebol Clube do Porto tem nada a ver com a vida privada do presidente do clube e da SAD. Mas compete a Pinto da Costa e aos restantes dirigentes do FC Porto evitar estas misturas, que são desagradáveis e contribuem para alimentar um clima de promiscuidade indesejável.

Foto: Caras e blog 'Mulher Atenta'

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Mude-se os regulamentos!


«O FC Porto inscreveu oito atletas estrangeiras no Campeonato Nacional da I Divisão (sector feminino), sete das quais viajando expressamente para a competição do próximo fim-de-semana. Às cinco atletas que utilizou na pista coberta - e que foram determinantes no título conquistado ao Sporting - juntam-se agora mais uma fundista, Polina Jelizarova, especialista de obstáculos, e duas lançadoras, Austra Skujyte (peso e disco) e Laura Igaune (martelo), todas letãs.
Se utilizar em pleno estas atletas (cinco lituanas e três letãs), o FC Porto fará 13 das 19 provas individuais com estrangeiras, todas elas, excepto a marchadora Kristina Saltanovic, vindas expressamente dos seus países apenas para esta competição. Nas listas de inscrição, o Sporting tem a russa Yekaterina Volkova, corredora que não está operacional por lesão, enquanto o Benfica inscreveu o martelista checo Luka Melich.
A federação portuguesa não tem nenhuma regulamentação que proíba esta "invasão" de atletas comunitários, mas já preparou uma proposta a ser presente em próxima assembleia geral, na qual impede a participação em competições colectivas de atletas que tenham sido internacionais ou tenham competido em campeonatos nos seus países nos 12 meses anteriores. Segundo se pode ler na proposta, este articulado é já seguido por algumas federações e "impedirá contratos temporários de trabalho", pretendendo a federação que os clubes "invistam em atletas portugueses".»
in Record, 11/06/2010


Pelos vistos, a vitória da equipa feminina de Atletismo do FC Porto no campeonato nacional de clubes de pista coberta, interrompendo uma série de 15 títulos consecutivos do Sporting, e a perspectiva de repetir a gracinha no campeonato nacional de clubes ao ar livre, que se vai disputar sábado e domingo, está a deixar os clubes da 2ª circular nervosos.
Daí, o tom adoptado pelo jornalista do Record no texto anterior e as alterações aos regulamentos que a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) promete fazer, as quais têm um alvo bem determinado – o FC Porto – e um objectivo: repor a “normalidade”.

O que eu nunca vi foi a FPA preocupada com o facto de o SLB e o Sporting irem “roubar” atletas promissores a outros clubes, aliciando-os com dinheiro, sem que esses clubes (muitos deles pequenos clubes de bairro) fossem indemnizados pelo tempo e custo de formação desses atletas. Evidentemente, para estas situações não é preciso alterar regulamentos...

Mas enfim, não é só no futebol que há gente que "trata das coisas por outro lado", bem como, clubes especialistas em ganharem na secretaria, quando não têm argumentos para ganhar nos relvados (neste caso também na pista).

P.S. Já o ano passado, por esta altura, a FPA teve como alvo o FC Porto.

A genialidade não se contagia

Por Miguel Lourenço Pereira


Há alturas da vida em que começamos a perceber que há coisas que, quando estão na moda, são difíceis de contrariar. Depois de vender a imagem de que um bom técnico tem de chegar com uma bagagem de experiência e (muitos) anos de serviço acumulados, nos últimos passou-se para o outro lado da barricada. Técnicos jovens, sem aparente experiência, chegam rapidamente a postos de máxima importância. André Villas-Boas, novo treinador do FC Porto, é o último destes casos. Um caso perigoso por se partir da falsa premissa de que a genialidade pode ser contagiosa. Nunca o é. Para singrar na vida e nos relvados é preciso algo mais. Esse plus tê-lo-á o novo mister?

Começo esta análise à chegada de Villas-Boas ao FC Porto por sublinhar que não tenho nenhuma expectativa em relação ao técnico. Principalmente porque este não me deu nenhum motivo para tal. Nem bom, nem mau. E esse é o meu, e talvez de outros portistas também, problema. Não sei se é a sede de títulos, se o passado mediático do técnico, ou o desejo de voltar atrás no tempo. Mas o que me parece é que o consensualismo gerado à volta desta contratação é uma faca de dois gumes.

A nossa história tem um curioso background para estas questões da idade e experiência. Os três maiores técnicos da vida do FC Porto começaram muito novos no banco das Antas. Pedroto foi treinador interino com 32 e principal aos 38. Artur Jorge chegou com 38 e José Mourinho com 39. Todos eles tinham alguma experiência prévia em equipas de inferior reputação. Pedroto tinha orientado a selecção júnior portuguesa (com a qual foi campeão da Europa), o Leixões, Varzim e Académica. Artur Jorge tinha sido adjunto de Pedroto no Vitória de Guimarães, passando depois a técnico principal durante ano e meio, antes de treinar Belenenses e Portimonense durante os dois anos seguintes. E Mourinho, depois de algumas semanas na Luz, brilhou em Leiria antes de chegar ao clube azul e branco. Esses argumentos serão válidos para os defensores da nomeação do novo técnico. Com a particular diferença de que os seus antecessores tinham uma real experiência no banco, com bons indicativos. E, exceptuando Mourinho, com quem tanto – e até nisto - se quer comparar o novo técnico, os outros dois tinham sido futebolistas de sucesso, habitualmente um primeiro passo importante para dar o salto à função de técnico.

Villas-Boas, ao contrário, começou como analista pontual de Bobby Robson, época onde conheceu Mourinho, com quem travaria amizade. A partir de 2002 ambos começaram um largo trajecto que terminou no passado Verão. Essa carreira, feita lado a lado com o “Special One”, deu-lhe um bónus mediático invulgar, para alguém com as suas funções, e ajudou a criar a aura de que era alguém preparado para os grandes desafios depois de “beber” todos os ensinamentos do mestre. Para mim, escassos argumentos para uma empreitada como esta.

Depois de um ano como o que se viveu no Dragão, espera-se que o novo técnico do FC Porto seja, no mínimo, um revolucionário tranquilo. Não se procura uma politica de corte radical, criticada como já se viu com os Del Neri e Adriaanse, mas sim alguém que arme uma equipa, seja eficaz e, acima de tudo, entenda os principais objectivos de um clube que precisa de títulos para agradar aos adeptos e exibições convincentes na Europa, para fazer caixa com as sempre inevitáveis vendas.

Villas-Boas pode vir a revelar-se um treinador de top. Não há qualquer indicio em contrário. Mas também não o há a seu favor. A sua Académica foi uma equipa assumidamente pautada pela mediania da metade da tabela da Liga Sagres. Não entusiasmou, não goleou, não bateu o pé aos grandes, nem sequer melhorou a sua prestação do ano prévio. Talvez não fosse o aspecto mediático que o rodeia, e pouco diferenciaria Villas-Boas de Inácio, van der Gaag, Vidigal, Ulisses Morais ou Manuel Machado. Mas hoje em dia o marketing é tudo. Mourinho funcionou, Guardiola funcionou, Dunga funcionou... e fica no ar a sensação de que o fenómeno pode repetir-se. O que a maioria das pessoas se esquecem é que, por cada jovem precoce que se afirma nos bancos, surgem dois ou três treinadores que demonstram que a imagem não é tudo. E que, para orientar um clube de top, como se deveria considerar o FC Porto, é preciso dispor de uma considerável bagagem. E não é necessariamente a experiência em anos. Há treinadores jovens que emergem, mas que já davam todas as indicações de serem projectos apetecíveis quando apenas eram jogadores. Aí está o caso de Guardiola, ou do próprio Pedroto. Villas-Boas é considerado um brilhante analista, com conhecimentos técnico-tácticos de primeira ordem. Mas a sua função nos últimos anos assentou essencialmente no trabalho de olheiro e confidente. Não na gestão de um grupo de homens, ou na prospecção de mercado (interno, leia-se camadas jovens, ou externo). Não tem a mínima experiência de liderança em situações adversas, nem nunca levou verdadeiramente aos ombros a pressão de um jogo chave. Até nisso a sua Académica foi um inicio tranquilo, o que nos deixa poucas pistas.

O homem que chegou a aceitar ser seleccionador das Ilhas Virgens Britânicas sem nunca lá ter posto os pés, é um verdadeiro desconhecido. Um tiro que pode ir tão depressa ao alvo como passar largamente ao lado. Tem tudo o que pode permitir a um adepto duvidar. E isso pode funcionar a seu favor ou como elemento desestabilizador. Terá de ser ele, agora ungido novo profeta, a provar que a razão, algo sempre relativo, dorme do seu lado. Não se esperam mutações tácticas (afinal, é um amigo do 4-3-3 como Jesualdo Ferreira, sem uma visível capacidade de aplicar distintos modelos), nem que traga como Mourinho, hábeis descobertas no mercado nacional. Os que se lembram da ascensão meteórica de Artur Jorge, que também bebeu largos anos com outro mestre, devem também lembrar-se de Morais, o homem que muitos viam como tão bom quanto Pedroto. Os que mergulham no futebol inglês conhecerão também a história de Brian Clough e do inseparável Peter Taylor, de quem muitos achavam que era o génio da dupla. E quanto a “invenções”, nada mais recente do que a tentativa de Pinto da Costa em tentar fazer de José Couceiro o que ele simplesmente não é. Tudo lições que é preciso retirar de um passado ambíguo como tudo na vida.

No final resta sublinhar que o novo técnico do FC Porto terá todo o meu apoio como sócio e adepto. Espero que o seu reinado no Dragão seja, se não longo, pelo menos bem sucedido. Dele esperam-se títulos, bom futebol e um sentido de liderança dentro e fora do terreno de jogo que tanto foi questionado no técnico anterior. No entanto, e ao contrário de muitos, não acredito em “messias” e em homens à prova de críticas. O banco de suplentes do FC Porto não é um lugar qualquer. É preciso merecê-lo. E saber mantê-lo. Boa sorte André!

Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Miguel Lourenço Pereira a elaboração deste artigo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

FC Porto nos Mundiais (I)


Entre os 22 "Magriços" que foram a Inglaterra, no Mundial de 1966, três eram jogadores do FC Porto:
- Américo, guarda-redes, 33 anos
- Custódio Pinto, médio ("interior")/avançado, 24 anos
- Festa, defesa-direito, 26 anos

Apenas Festa teve oportunidade de jogar (em 3 jogos, contra a Bulgária, Inglaterra e URSS), apesar de muita gente considerar que Américo era o melhor dos três guarda-redes convocados (os outros dois foram Carvalho do Sporting e José Pereira do Belenenses).

Foto: Portugal x Bulgária, Festa é o terceiro em cima, a contar da esquerda para a direita.

Condecorações do 10 de Junho

Hoje, dia 10 de Junho, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (ou dia da raça, se o Cavaco insistir na leitura das suas memórias), é altura de reflectirmos sobre aqueles que verdadeiramente se destacaram ao serviço da pátria no último ano, observar os seus honrosos e heróicos feitos e prestar-lhes a merecida homenagem aqui no Reflexão Portista.

Ricardo Costa


Esse bravo dirigente da Liga de Clubes exibe exemplarmente as grandes qualidades do povo luso: a coragem, a determinação, a imparcialidade e o benfiquismo. Este bravo homem resistiu a todas as pressões do maior obstáculo à verdade desportiva, o FC Porto, e procedeu a uma das decisões mais justas de sempre de toda a justiça futebolística: castigou com 4 e 6 meses de inactividade dois jogadores que pontapearam seguranças privados que os tinham cuspido e insultado previamente. A outra decisão de justiça desportiva que saiu desta mente brilhante foi a punição com 3 meses de inactividade de um jogador do Sp. Braga que "tentou pontapear um treinador-adjunto do SLB, tendo este evitado o pontapé com um movimento rotativo inverso, blá, blá, blá...". Mais uma vez, pela coragem patenteada, pela imparcialidade lúcida e pelo serviço à pátria propomos a condecoração com o Grande Colar da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.

Rui Costa


Este bravo dirigente do SLB foi o ideólogo e dinamizador dessa que será uma forma de guerrilha táctica comparável à inovação de Aljubarrota e que é o pânico gerado nos túneis entre os balneários e o relvado. Já desde os idos tempos de 2008 que Rui Costa se destacou como um estratega nato na arte de emboscar os adversários nos túneis, ora com o desvio das câmaras de captação de imagens ora com o cerco a adversários sozinhos por um numeroso contingente de seguranças privados que aplicam golpes de karaté nas costas das vítimas, estando o "maestro" a assistir de mãos nos bolsos. Um verdadeiro herói cujos feitos ao serviço da pátria para sempre serão recordados. Assim propomos a condecoração com a Grã-Cruz da Ordem de Aviz.

Olegário Benquerença, Lucílio Baptista, Bruno Paixão e João Ferreira


Estes são os quatro bravos membros da arbitragem portuguesa, quais quatro cavaleiros do Apocalipse, que mais se notabilizaram pelos seus nobres feitos dentro e fora do relvado ao longo das últimas épocas futebolísticas. Muito haveria por dizer da sua coragem, da sua imparcialidade, da sua lucidez e da sua verticalidade. Para eles propomos a condecoração como Cavaleiros da Ordem do Infante D. Henrique (que visa distiguir os serviços relevantes à pátria, no país ou no estrangeiro, e os serviços de expansão da cultura portuguesa e dos seus valores).

Prosegur


A empresa que prestou um excelente serviço à pátria quando enviou para o túnel da Luz colaboradores seus especializados em apaziguar os ânimos, reunir consensos e, principalmente, proteger os jogadores de futebol, para que não hajam distúrbios na sua zona de influência. De destacar a bravura de dois dos seus efectivos que enfrentaram sem temor dois temíveis vândalos altamente agressivos que vestiam de azul e branco. Para esta entidade propõe-se o grau de Membro Honorário da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.

Rui Santos


Este ilustre cidadão português discorre semanalmente durante várias horas sobre temas com grande interesse e relevo nacional numa estação televisiva. Os seus momentos de maior lucidez devem ser lembrados, nomeadamente aquele em que de forma corajosa apelidou a Justiça civil de "contaminada" depois da absolvição de Pinto da Costa de todos os crimes de que estava acusado. A sua luta é a sua verdade desportiva. Mas de todas as suas virtudes aquelas que mais lhe devem ser reconhecidas são o extremo bom gosto na escolha de fatos, gravatas e botões de punho e a forma brilhante (literalmente) como conserva semanalmente a sua frondosa cabeleira lavada em azeite colhido ao luar. Para ele reservámos o grau de Cavaleiro da Ordem de Sant'Iago da Espada.

Carlos Daniel


Este director de programas da RTP fez um trabalho muito meritório no acompanhamento semanal das prestações do conhecido septuagenário cineasta do programa Trio d'Ataque. Este tipo de voluntarismo só enobrece quem o pratica. Carlos Daniel chegou mesmo a prestar esse precioso auxílio em directo num dos programas em que o habitual pivot, Hugo Gilberto, não esteve disponível. Foi comovente! Só pode ser má-fé publicarem artigos que insinuem que o Carlos Daniel é benfiquista e faccioso. Não deixaremos de lembrar um homem com esta dedicação à causa pública e assim condecorá-lo com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito.

Déjà vu


No 5º jogo da final assistiu-se a vários dos problemas que já se tinham visto em jogos anteriores:

Inexistência de um base que saiba organizar e controlar o jogo e, já agora, que marque pontos (Jeremy Hunt marcou 2 pontos e João Figueiredo 5).

Deficit claro na luta das tabelas, mesmo quando tínhamos em campo um cinco mais alto, com o SLB a ganhar ressalto atrás de ressalto.

Pouco trabalho no jogo interior, com o ataque, muitas vezes, a limitar-se a tentativas de triplos.

Percentagem baixa na linha de lances livres (os jogadores portistas falharam 11 lançamentos).

Um Carlos Andrade psicologicamente instável (fez três faltas nos primeiros três minutos, voltou a ser punido com uma falta técnica e foi para o banco) e irreconhecível em termos ofensivos. Estranhamente, esteve muito abaixo do que pode e sabe durante todos os jogos desta final dos play-off.

Um Jeremy Hunt de altos e baixos. Neste jogo esteve claramente em baixo (marcou uns míseros 2 pontos e não converteu um único dos oito triplos tentados).

O FC Porto perdeu o jogo (85-74) e o SLB ganhou o campeonato com naturalidade.

Mas, atenção, o fosso que separava as duas equipas diminuiu imenso. Há que continuar o trabalho positivo desenvolvido esta época, mantendo o treinador, o que o plantel tem de bom e indo à procura de jogadores (ao alcance do orçamento portista) para colmatar as lacunas que estão à vista de todos.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Casa que "nunca foi vilipendiada"


Alguma comunicação social noticiou o facto da Casa do FC Porto de Bragança ter sido apedrejada por adeptos benfiquistas, no passado dia 9 de Maio, durante os festejos da vitória no campeonato dos túneis.

Sensivelmente na mesma altura, e perante o silêncio generalizado da comunicação social (e também do site oficial do FC Porto), aqui e noutros blogues portistas foram denunciados diversos ataques e actos de vandalismo contra as casas do FC Porto de Coimbra (no dia 3 de Abril), de Viana do Castelo, das Caldas da Rainha e de Quarteira.

Faltava falar da Casa do FC Porto de Lisboa que, segundo afirmou António Pragal Colaço, "nunca foi vilipendiada por ninguém aqui em Lisboa". De facto, no meio das diversas declarações incendiárias que Pragal Colaço proferiu em programas da Benfica TV – “vamos ter de puxar das armas”, “ela [retaliação] já está programada”, etc. –, há um diálogo em que este convidado habitual do canal oficial do SLB se refere à Casa do FC Porto de Lisboa:

António Pragal Colaço (APC): Vai dar molho e eu sei o que estou a dizer. A casa do Benfica, a casa do Porto de Lisboa nunca foi vilipendiada por ninguém aqui em Lisboa
Espectador: Nunca
APC: Nunca e todas as casas do Benfica…
Pedro Ferreira (PF): Eu espero que não seja
APC: Mas vai ser
PF: Eu espero que não seja
APC: Mas vai ser

Infelizmente não é vai ser, como anunciou Pragal Colaço, mas sim já foi e várias vezes. Bastou-me falar com um portista amigo dos Dragões de Lisboa, para ficar a par de diversos incidentes que se verificaram nos últimos anos, entre os quais destaco:

Maio de 2005: Após o SLB ter conquistado o título 2004/05 no estádio do Bessa, dezenas de benfiquistas foram manifestar-se para a frente da delegação e os directores dos Dragões de Lisboa tiveram que sair, um a um, escoltados pelo Corpo de Intervenção da PSP.

Dezembro de 2007: O FC Porto foi ao estádio da Luz ganhar por 1-0, golo de Quaresma. Depois do encerramento da delegação, quando os directores desciam as escadas, um grupo de indivíduos estava a subir e perguntou se a delegação já estava encerrada. Responderam-lhes que sim e eles perguntaram se não havia possibilidade de tornarem a abrir, pois queriam beber um copo para comemorar a vitória do FC Porto. Os directores da delegação perceberam que eles não eram portistas e vinham, isso sim, para armar sarilho. Lá foram conversando com eles até conseguirem que fossem descendo as escadas e saíssem para a rua. Quando os indivíduos estavam já na rua, puxaram um dos directores e começaram a agredi-lo até que outro director interveio e o puxou para dentro do edifício.

Abril de 2010 (duas semanas antes do último FC Porto x SLB): Apedrejamento da delegação durante a noite, tendo partido o placar existente (conforme as fotos ilustram). Para quem não conhece, as instalações dos Dragões de Lisboa são num 2.º andar e já houve noutras ocasiões incidentes semelhantes. Inclusive já houve vidros e estores partidos de outros andares (1.º e 3.º), por falta de pontaria dos vândalos.



Aqui fica mais este testemunho, para memória futura e para elucidar os pragais colaços deste Mundo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Os Gloriosos Malucos das Deslocações de Antanho


No meu tempo acompanhei muitos jogos fora do F.C. Porto, especialmente, claro, a Lisboa (os casos de Boavista e outros de ao pé da porta são obviamente diferentes, pois nem deslocação envolviam). E como eu, muitos outros. A televisão não transmitia, os jogos eram a horas decentes e o pessoal lá ia. Milhares, por vezes dezenas de milhar, pois vi alguns jogos nos antigos estádios de Alvalade e da Luz com 20.000 ou mais adeptos do F.C. Porto nas bancadas.

Na estrada era um sem-número de automóveis com cachecóis e bandeiras azul-brancas a esvoaçar. O leitão - prato favorito de muitos ao jantar nas viagens de regresso de Lisboa - esgotava em alguns restaurantes da "região demarcada" da Bairrada. Era vulgar ver-se picnics no Campo Grande antes de jogos em Alvalade. Eu costumava ir com um grupo mais ou menos fixo e o Caleidoscópio, passe a publicidade, era o nosso pouso habitual antes de jogos em Alvalade ou na Luz. Neste último caso seguia-se uma longa caminhada até ao estádio - e sem polícia ou cortejo organizado, nada disso, que as claques ainda não existiam ou, mais tarde, ainda eram incipientes.

Por vezes fazia-se a viagem em excursão de autocarro e ocasionalmente havia umas peripécias memoráveis. Como naquele dia em que, ao sairmos da portagem de Sacavém, fomos recebidos pelas habituais comissões de recepção de benfiquistas, com bandeiras vermelhas empunhadas. Um dos vermelhuscos bradava, mostrando quatro dedos de uma mão: "Quatro! Ides levar quatro!" Subitamente, salta um portista mais irado do lado esquerdo do autocarro, põe a cabeça de fora de uma janela do lado oposto, e grita: "Quatro levou a tua mulher encostada à estátua, ó filho da p...!". Gargalhada geral no autocarro, claro!


Agora, o forasteiro em jogos de futebol é quase exclusivamente um membro de uma claque. A televisão, os horários e os ambientes cada vez mais hostis afastaram o Zé do Farnel das viagens ao futebol. Fizemos em Portugal um percurso inverso, neste aspecto, ao de Inglaterra. Eu estava naquele país nos anos 70 quando o hooliganismo já fizera a sua aparição e era perigoso ir a certos jogos. Anos mais tarde, com o problema resolvido, voltei a visitar estádios de Inglaterra na maior segurança. De hoje em dia em Portugal ir a um jogo fora é uma aventura arriscada.

Mas estas linhas pretendem essencialmente recordar aqueles bons tempos de clubismo sadio, mas nem por isso menos entusiástico. Havia zaragatas volta e meia, claro, mas era mais confusão causada pelo verde tinto do que por maus instintos. Os gloriosos malucos das deslocações de antanho bem que mereciam um monumento em sua homenagem. Esses tempos, provavelmente, nunca voltarão.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Wait and see


«Conhecendo o projecto e olhando para os nomes escolhidos manifesto a minha confiança no projecto do Dr. Fernando Gomes. (...)
Tem excelentes relações com a comunidade empresarial onde é respeitado, bem como com os organismos que regulam o futebol no plano nacional e internacional. (...)
O Dr. Fernando Gomes é também o garante de um relacionamento cordial, educado e civilizado com todos os agentes desportivos bem como com as autarquias e Governo.»
Hermínio Loureiro, no seu blogue


«É um homem [Fernando Gomes] de clube, de SAD. Para liderar a Liga, tem a vantagem de nunca ter estado, no F. C. Porto, no futebol profissional. É um homem da administração, do marketing, e vai, de certeza, fazer um bom trabalho. Mais do que organizar campeonatos e discutir disciplina e arbitragem, o futebol precisa de dinheiro e, nessa área, que ele bem conhece, vai ter êxito. (...)
O novo presidente vai ter êxito na vertente económica-financeira. É uma pessoa com experiência, que tem ideias e que está bem relacionado com aqueles que têm a ver com essas áreas e com os que detêm o poder de ajudar nessas matérias.»
Valentim Loureiro, no JN


O ex-presidente da Direcção e o ex-presidente da Assembleia Geral da Liga não têm, propriamente, a mesma visão do fenómeno futebolístico e muito menos do desempenho da Liga nos últimos quatro anos, mas ambos tecem rasgados elogios ao Dr. Fernando Gomes.

Sabendo dos anti-corpos que tudo o que "cheire" a Futebol Clube do Porto gera na sociedade portuguesa, confesso que tanta unanimidade, de diferentes quadrantes, em torno de uma pessoa que até Janeiro deste ano foi vice-presidente do FC Porto e Administrador da FCP SAD me surpreende. Mas, se bem me lembro, há quatro anos atrás também Hermínio Loureiro teve o apoio de quase todos os clubes e depois foi o que se viu.

P.S. Fernando Gomes foi hoje eleito com 38 votos a favor e três abstenções, num acto eleitoral no qual não participaram FC Porto, Sp. Braga, Nacional da Madeira e Carregado.

O sucessor de Ricardo Costa

Na passada sexta-feira, a Comissão Disciplinar da Liga, liderada por Ricardo Costa, reuniu pela última vez. Entre as decisões tomadas houve um único castigo, aplicado a um jogador do FC Porto - Cristían Rodríguez -, que terá de pagar uma multa de 750 euros, alegadamente devido a um gesto incorrecto (supostamente levantou o dedo médio da mão esquerda para o público) que terá feito após a final da Taça da Liga.
Entretanto, o processo disciplinar instaurado a José Fernando dos Santos Ribeiro, segurança do Benfica, investigado pela agressão a Acácio Valentim, team manager do FC Porto, foi naturalmente arquivado.

Os novos órgãos da Liga vão ser eleitos e tomar posse hoje. Para além de Fernando Gomes, que sucede a Hermínio Loureiro, de José Luís Arnaut, que sucede a Valentim Loureiro e de Vítor Pereira, que permanece no mesmo posto, a grande novidade é Herculano Lima, juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, já jubilado, que sucede ao saudoso (para os benfiquistas) Ricardo Costa.

Herculano Lima já teve uma passagem pelo futebol, nomeadamente pela presidência do Conselho de Justiça da FPF, da qual se demitiu com estrondo em Novembro de 2007, por ter sido derrotado e não ter aceite uma votação deste órgão, que reduziu de seis meses para 100 dias uma pena aplicada a Valentim Loureiro.

Dizem-me que Herculano Lima é adepto do FC Porto e que até tem (tinha) presença regular no Estádio do Dragão, mas o que é certo é que algumas das suas decisões e declarações foram, no mínimo, polémicas. Recordam-se de uma não-decisão a propósito de um processo urgente envolvendo o Quaresma, supostamente porque tinha uma partida de bridge marcada com amigos?

O juiz Herculano Lima merece todo o meu respeito, mas não deve ser por acaso que o seu nome é muito bem visto no universo encarnado, ao ponto de um conhecido benfiquista (comentador num programa desportivo do Porto Canal), muito próximo de Luis Filipe Vieira, ter escrito no seu blogue, em 07/03/2008, que o juiz conselheiro Herculano Lima, era um homem de carácter sem lugar no desacreditado futebol português.

Depois de oito anos em que, primeiro Cunha Leal e depois Ricardo Costa, cumpriram uma “missão patriótica” na Liga, veremos o que o futuro nos reserva, mas os sinais existentes não me deixam tranquilo.

Foto: Virgínia Ferreira/Revista VIVA

domingo, 6 de junho de 2010

Primeiro match point anulado


Breves comentários ao FC Porto x SLB de hoje:

1) O FC Porto começou o jogo com aquele que, na minha opinião, é o seu melhor cinco: Jeremy Hunt, Carlos Andrade, Nuno Marçal, Gregory Stempin e Julian Terrell.

2) Mesmo sendo um 2º base/extremo, Jeremy Hunt é, na minha opinião, melhor opção para base do que André Bessa ou João Figueiredo. É uma pena às vezes desconcentrar-se e esquecer-se que está a jogar como 1º base e não na posição 2.

3) Desta vez, o FC Porto não deu hipóteses e foi consolidando a vantagem ao longo do jogo: 13 pontos (24-11) no final do 1º período; 16 pontos (43-27) ao intervalo; 22 pontos (67-45) no final do 3º período e 32 pontos de diferença (90-58) no final do jogo.

4) O jogo "terminou" a 6.37 do final do 3.º período quando, após mais uma perda de bola do Benfica no ataque, Jeremy Hunt fez um afundanço e colocou o FC Porto a vencer por 24 pontos (53-29).

5) É incrível a passividade dos árbitros perante a pressão permanente que Henrique Vieira exerce. Foi preciso o FC Porto estar a ganhar por mais de 20 pontos, para que um dos árbitros tivesse a suprema "coragem" para marcar uma falta técnica ao treinador do SLB.

6) Para além da questão dos bases e do cinco inicial, pareceu-me óbvio que a equipa do FC Porto recuperou muito melhor do desgaste físico dos dois prolongamentos de sexta-feira à noite (ao intervalo o SLB tinha uma percentagem de eficácia de 12% nos lançamentos de 2 pontos).

7) A caminho dos 35 anos (nasceu em Campanhã, no Porto, a 14 de Novembro de 1975) é impressionante o que Nuno Marçal ainda joga. Em 23 minutos, Marçal marcou 21 pontos.

8) Gregory Stempin foi o MVP nos três jogos com a Ovarense (nas meias-finais do play-off). Na sexta-feira andou com a equipa às costas, com a preciosa ajuda de Nuno Marçal, e hoje voltou a ser o MVP (24 pontos, 10 ressaltos, 3 roubos de bola e 1 desarme de lançamento). Que grande jogador!

9) O que se passa com Carlos Andrade? Tem estado irreconhecível (pela negativa) nos jogos com o SLB, principalmente em termos ofensivos. Espero que reapareça no jogo 5, na próxima 4ª feira, no pavilhão da Luz.

10) Tal como eu previa, hoje esteve menos gente do que na sexta-feira à noite (1.511 espectadores, números oficiais). Já agora, porque razão é que os poucos elementos dos Super Dragões que estiveram presentes (20? 30?), tiraram a faixa e foram embora no final do 3º período?


Do recreio do Colégio ao banco de suplentes

Por Ana Martins


As poucas pessoas com quem fui falando sobre a sucessão de Jesualdo Ferreira sabem que André Villas-Boas (AVB) não seria a minha opção. Não por falta de qualidade, mas porque entendia que, dentro do mesmo perfil – técnico jovem, com inovação, a prosaica lufada de ar fresco – a opção Domingos seria a menos arriscada.
Esqueci eu um pormenor: Pinto da Costa tem esta mania de não querer ser tido como previsível. E isso era o mais previsível. Fosse em Leiria, Coimbra ou Braga, Domingos Paciência fez sempre melhor que os seus antecessores. Não entendo (ou melhor, tenho receio de perceber) o veto ao nome de Domingos Paciência.

Mas o que há de comum nesta shortlist? Ambos são, assumidamente, portistas. De personalidade, background social e trajectórias profissionais completamente diferentes. Ser portista - será uma dimensão de perfil assim tão relevante?

Durante quatro anos, o benfiquista Jesualdo Ferreira foi apenas tolerado, já que lá foi cumprindo o mínimo exigível. O mesmo se passou com Fernando Santos. No primeiro ano em que falharam, PC percebeu que não havia margem de manobra no relacionamento com os adeptos. O único técnico venerado foi mesmo José Mourinho. Não só pelos resultados, mas pela ligação com os adeptos (aquele gesto para os Super Dragões no FCP-0 Panathinaikos-1 diz muito). Até Robson tinha uma secção de anti-corpos no Tribunal, a quem deu razão pela maneira estapafúrdia com que saiu para Barcelona.

AVB, o Cenourinha dos tempos do Colégio, não era um prodígio no rectângulo. Mas materializa a imagem de um novo paradigma de treinador e a sua idade não é qualquer obstáculo, porque desde sempre sabe o que é o clube. Veja-se o aviso que já fez: não há entrevistas individuais aos jornais, só conferências de imprensa. Conhece a dinâmica da cidade e sabe o que o clube representa para o dia-a-dia dos habitantes do Grande Porto e do País. Tem, por outro lado, mundividência, pode ajudar o clube a libertar-se para outros mundos. É um obcecado por trabalho e estabelece uma relação emocionalmente complexa (próxima e distanciada simultaneamente, como convém à figura de “pai”) com os jogadores. Tudo intencional. Terá oportunidades de cometer erros, como todos sabemos. Mas aquele Porto medroso, do mete um golo e passa a contra-ataque, termina.

A questão que se coloca é: sendo portista, terá o benefício da dúvida?
Eu acho que não. A mais-valia de ser portista é a compreensão da estrutura, da cultura e da mentalidade. Algo que acho que um estrangeiro, daqueles medianos que nos têm chegado, nunca chegam a compreender. Não vai ser um protector na altura do adepto digerir a derrota. Mas que vos sirva de pequeno conforto: ao contrário da maior parte (jogadores, treinadores), quando cada um de nós se deitar revoltado e angustiado, acreditem – o Cenourinha estará ainda pior do que nós. Já assim o era no recreio, não mudou agora. E isso deixa-me mais tranquila.

Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece à Ana Martins a elaboração deste artigo.

sábado, 5 de junho de 2010

Um limão espremido


Ontem, num Dragão Caixa quase cheio (1.868 espectadores, números oficiais) e com um ambiente vibrante, jogou-se o terceiro jogo da final do play-off, com mais uma vitória do SLB (97-101) após dois prolongamentos.

Foi um jogo que o FC Porto teve na mão, que podia e devia ter ganho, mas que infantilmente entregou de mão beijada. Vejamos:
À entrada para o quarto período do jogo, o FC Porto vencia por 66-61.
A 4.31 do final o FC Porto vencia por 78-68. Contudo, em menos de três minutos, o SLB fez um parcial de 11-0 (!!!) e, a 1.39 do final, passou para a frente do marcador por 78-79.
Já no primeiro prolongamento, a apenas 2.30 do final, o FC Porto teve novamente uma vantagem confortável (93-85) mas, mais uma vez, "desligou" e deixou que o SLB recuperasse.

Neste jogo, vieram ao de cima as principais fragilidades do plantel portista, entre as quais destaco, mais uma vez, a incapacidade que a equipa evidencia nos ressaltos. Mesmo sem Elvis Évora (lesionado), o SLB dominou as duas tabelas e foi quase caricato ver a forma como Will Frisby ganhava sucessivos ressaltos na tabela portista, incluindo na sequência de lances livres falhados por jogadores encarnados. Só nos últimos segundos do primeiro prolongamento houve três situações destas. Incrível!

De resto, Jeremy Hunt e Julian Terrell, sendo bons jogadores, não estão à altura dos americanos do SLB (Ben Reed, Heshimu Evans e Will Frisby). O único que está nesse patamar é Greg Stempin (26 pontos, 6 ressaltos, 3 assistências, 1 roubo de bola e 3 desarmes de lançamento). Quando Stempin foi excluído, a 44 segundos do final do 1º prolongamento, a queda de rendimento da equipa portista foi vertical.

E relativamente aos bases é bom nem falar. André Bessa e João Figueiredo não se comparam com Diogo Carreira, que marcou "apenas" 22 pontos e, nos momentos mais difíceis, andou com a equipa do SLB às costas.

O quarto jogo da final é no domingo, às 16h00. Eu irei estar lá novamente, mas com a consciência plena de que esta equipa do FC Porto é um limão espremido por Moncho López. Até podemos ganhar, pontualmente, um jogo ao SLB (este ano já ganhamos por duas vezes e ontem esteve por um fio) mas, apesar da melhoria que se registou esta época, ainda não temos plantel para na final de um play-off vencer quatro jogos. Isso é claro.

Foto: Record