Continuação da
primeira parte do artigo publicado aqui sobre como o FC Porto deve apostar a sério numa prospecção mundial em jogadores cada vez mais jovens para evitar entrar numa espiral descontrolada de gastos.
O problema de uma ausência de politica de cantera em 20 anos
Sem o cashflow dos Fundos e agentes para comprar na América
ou no Leste Europeu, sem querer ser um balão de ensaio regular para os grandes
clubes europeus, a única solução para manter-se competitivo no espaço europeu e
nacional é reduzir gastos com o pessoal ao máximo, ter um plantel barato e essencialmente
produzido em casa. Isso significa comprar mais (e melhor) a nível doméstico
(uma inversão que se vai assistindo ainda que com escasso resultado) mas também
lançar mais produtos de formação.
Se o FC Porto tivesse, historicamente, uma cantera como a de
um Ajax, Feyenoord ou Lyon (que apostou neste modelo há sete anos, prevendo o
que ia suceder, quando estavam na mesma posição que o FC Porto a nível mundial,
e agora estão a colher os lucros) o problema resolvia-se mais facilmente. Mas
não temos.
Ruben Neves e Gonçalo Paciência são a excepção.
Ainda faltam a André Silva, Ivo Rodrigues, Tomas Podstawski,
Rafa Silva, Francisco Ramos ou Rui Pedro muitos tropeções para serem jogadores
grandes. E eles são a nata da nossa formação. Para procurar reequilibrar a
balança o clube desviou o investimento em grandes nomes para a primeira equipa
num novo modelo para as camadas jovens que inclui o empréstimo com opção de
compra para jovens promessas entre os 16 e os 19 anos.
Essa é a faixa etária ideal. Antes disso é impossível
avaliar com certeza o potencial de um jogador, há problemas legais em excesso e
o risco é tremendo. Mas entre os 16 e os 19 tudo se facilita. Os jogadores são
menores (e muitos têm de mudar-se com familiares) mas a avaliação real de
potencial é mais certeira, o seu desenvolvimento físico está quase completo e a
maturidade mental está noutro estado. A margem de erro reduz-se ao mínimo ao
mesmo tempo que o preço de custo é ainda relativamente baixo, salvo casos
pontuais.
Apostar na prospecção juvenil, uma solução a médio prazo inevitável
Até essa franja etária (os 16 anos) o lógico é que o clube
procure, essencialmente, jogadores nas escolas Vitalis e, em casos muito
pontuais, jogadores a nível regional de valor contrastado. A partir de aí, até
aos 18 anos, devem começar a chegar os primeiros jogadores de fora do Grande
Porto (ampliando a nível nacional a prospecção) e esses casos de estrangeiros que
são apostas de futuro. A partir dos 18 até aos 20 – e fim da etapa lógica na
equipa B – entende-se a contratação pontual de um Pité, por exemplo, que
demonstre potencial real a um nível competitivo já profissional, mas o resto deve
vir directamente dos escalões base para alimentar a primeira equipa.
Esta claro que a ideia não é nova e ninguém a tem explorado
melhor que a Udinese mas o certo é que todos os grandes europeus têm feito isso
na última década e meia.
Foi assim que Messi chegou a Barcelona, Fabregas ao Arsenal,
Piqué, Pogba e Januzaj ao Manchester United, etc. Os grandes clubes europeus
têm-se dedicado a essa prospecção a fundo, filtrando cada vez mais o talento que
dispõem. Só que há mercados ainda por explorar e há jogadores que entendem que
mais vale fazer a formação num clube médio do que num clube grande. Menor
concorrência, maior facilidade de chamar a atenção são motivos de sobra,
Por isso, para um clube como o FC Porto, o modelo a seguir é
simples. Os jogadores são seguidos nos torneios juvenis pela nossa excelente rede
de scouting a nível mundial, sabendo que muitos dos melhores não estão ao nosso
alcance. Aos restantes, os seus respectivos clubes são abordados para negociar
o empréstimo de um ou dois anos com
opção de compra. Se o jogador demonstra valer o investimento, activa-se a
compra definitiva e acaba-se a formação em casa (outro ponto a favor à medida
que as restrições impostas pela UEFA nesse campo vão aumentando).
Riscos e beneficios
Estes não são jogadores de tostões.
Os clubes de onde vêm
sabem disso e negoceiam bem. Para a sua idade e experiência são caros. E até
agora não há provas de sucesso desde que o processo começou com Kelvin, Atsu,
Ba e Kadu já nos dias de AVB e Vitor Pereira. No total chegaram já cerca de 15 futebolistas nessa modalidade para a equipa B e juniores nos últimos anos. A taxa de sucesso é, até ver, reduzida. Um golo que valeu um titulo (Kelvin) e um extremo que quis sair antes de "explodir" (Atsu.) É no entanto interessante entender que esses jogadores, quanto mais novos chegarem, menor deveria ser o custo.
Kayembe custou mais de 2,5 milhões de euros ao clube. Lichnovsky 1,9 milhões (e já se vendeu 45%). Caballero custou cerca de 1 milhão. São 6 milhões em jogadores que não têm tido minutos na equipa principal. O investimento tem de caminhar para a redução do risco controlado. Depois destes exemplos (e de Victor Garcia e Pavlovski) recentemente tanto Gudiño e Leonardo Ruiz chegam com opção de compra em valores que superam o milhão de euros.
E há também Siemann, Lumor, Johansen, Elvis, Chidozie, Ezeh, Fede Varela, os irmãos Djim, Anderson Dim, tudo apostas de baixo custo para trabalhar em casa. Com a esperança de que saia, entre vários, uma pérola que justifique o projecto.
Tanto para os empréstimos como opção de compra como para as contratações de jovens sub19 a valores inferiores ao milhão de euros, o sinal é o mesmo. Esperar, desenvolver e (forçosamente) apostar para tentar rentabilizar. No caso dos empréstimos a situação é ainda mais evidente. Depois de um ano no Porto é fácil entender se há
potencial real ou não e o risco de activar opção de compra é sempre menor.
Menor do que apostar num Quintero ás cegas, por exemplo, ou num contentor de
jogadores para encher. Este processo é largo e só agora começou pelo que os
resultados vão demorar a fazer-se sentir na primeira equipa. Muitos destes
jovens chegarão com idade de juvenil ou júnior, terão de passar pela equipa B,
talvez ser emprestados e só depois chegarão ao plantel principal. Três a seis
anos como disse. É um risco porque é muito tempo para um clube que pode,
entretanto, ficar sem a referencia presidencial. Mas sem dinheiro para investir,
sem fundos a que recorrer e sem possibilidade de crescer à sombra dos Real e
Barcelona, esta é uma das soluções mais lógicas.
Tornar a primeira equipa mais
sustentável a nível de custos de salários e aquisição de passes e manter viva a
possibilidade de manter-nos atentos aos “Jacksons” do mercado. Também é certo
que pode implicar um menor investimento na primeira equipa a curto prazo (e de
aí os empréstimos) e uma perda de competitividade (vide caso Lyon).
No entanto, a possibilidade de ter vários elementos de
um onze formados em casa (ainda que venham dos quatro cantos do Mundo, pagos a
bom preço, mas com quatro ou cinco anos de Olival) é talvez o melhor cenário de
futuro para o FC Porto.