segunda-feira, 15 de março de 2010

Futebolês do Século XXI (2)


"Demonstrámos grande capacidade de sofrimento".

Leia-se: Foi um verdadeiro massacre, fomos completamente esmagados, mas tivemos um paio desgraçado.

A "Farça" da Liga

Por Filipe Sousa

Alturas há em que vencer pouco ou nada tem de prestigiante. E vencer (esta) Taça da Liga, é uma dessas alturas. Digo-o desde já, antes mesmo de jogada essa final: esta competição é uma treta. E o Porto devia apresentar-se em campo no dia 21 de Março, com 11 júniores e sem um único elemento do plantel principal na convocatória. Passo a explicar porquê:


- porque, como já referi atrás, esta competição é uma treta, seja porque todos os anos há dúvidas relativamente aos regulamentos, seja porque as arbitragens não são avaliadas - este é porventura o único mérito da Taça da Liga, a afirmação clara das cores clubísticas dos árbitros; não sendo avaliados, os senhores dos apitos e das bandeirinhas, não se fazem rogados, e oferecem-nos espectáculos que só se vêem mesmo em Portugal, com bolas que batem em cabeças e peitos, transformadas em penalties, e estranhos atentados à coerência - um pontapé (agressão) num jogo dá cartão amarelo, uma entrada violenta noutro, dá vermelho - sempre com a mesma equipa a colher daí benefícios. Com regulamentos "flexíveis" e árbitros com rédea solta, um jogo da Taça da Liga está mais próximo de um jogo entre "solteiros e casados" que de uma competição profissional.

- porque, como também já referi, a dita final se disputa a 21 de Março, altura em que o campeonato estará ainda em aberto, e é público o que aconteceu na última vez que o campeonato esteve "em aberto", a famosa "tunelada"; é bom lembrar que a final da Taça da Liga se disputará num terreno hostil, o Estádio do Estoril-Praia, e como já foi possível perceber, a "estrutura" encarnada, sempre tão crítica do guarda Abel, não tem qualquer pejo em copiar-lhe os métodos. Já perdemos o Hulk e o Sapunaru, e desta vez pode ser o Falcao, o Varela ou o Rúben Micael (que tão atravessado deve estar nas gargantas da "Santíssima Trindade" - Vieira, Costa & Jesus).

- porque, e no seguimento do ponto anterior, a Liga (de Clubes!) trata o vencedor das últimas 4 edições da sua principal prova "abaixo de cão", e o caso da "tunelada" é dos episódios recentes o mais emblemático. Compreendo que em virtude que o Clube do Regime (CR) ser o clube com mais adeptos, mereça alguma atenção especial, mas infelizmente para os seus dirigentes e adeptos, ter muitos sócios, muitos petro-dólares, organizar jogos de beneficência em favor do povo Haitiano quando se vive da exploração do povo Angolano, ou jogar bem, não são garantias de nada dentro das 4 linhas. A única verdade inquestionável do Futebol é esta: ganha quem marca mais golos (e quantos golos limpos já anularam ao Porto nos últimos jogos ...?). A Liga pode achar que é melhor para o negócio que o CR vença mais vezes, mas tal não lhes dá o direito de faltar ao respeito ao clube campeão, seja ele qual for, nem de "dobrar" as regras ou "fechar os olhos" em favor deste ou daquele clube, como tem feito ultimamente com o CR, cujo estádio tem sido repetidamente palco de fenómenos extra-jogo, com claro prejuízo para as equipas adversárias - só em invasões de campo por adeptos, já vamos na 3ª ocorrência, desde o famoso ataque do "diabo de Gaia" - e que são continuamente punidas com multas ridículas no valor de €2500. A Liga é dos Clubes, e se não pode ou não quer dar os mesmos benefícios a todos, que pelo menos não prejudique mais uns que outros.

- porque de todos os jogadores envolvidos em problemas nos túneis, só os do Porto são suspensos preventivamente. Está nas regras e o Porto votou a favor? E depois? Há por aí uns iluminados que se congratulam com a abstenção do CR nessas votações. Esquecem-se porém que "quem cala consente", e que portanto, o seu clube é tão responsável e cúmplice como todos os outros pelas regras que foram aprovadas. E em todo o caso, a decisão de suspender é fruto de um juízo arbitrário e subjectivo, não de nenhum cumprimento escrupuloso e objectivo dos regulamentos.

- porque o Porto deve há muito tempo aos seus adeptos uma demonstração cabal de força e protesto pela forma como tem sido tratado pela Liga, e que melhor forma há de os atingir do que atacar onde lhes dói mais, no bolso; depois da vergonha da última final, caso o Porto se apresentasse na próxima com uma equipa unicamente constituída por júniores, o jogo (e por arrasto a competição) transformar-se-ia num travestismo, perderia a pouca credibilidade que tem e dificilmente a Carlsberg se voltaria a associar a um tal Carnaval. O mais certo era esta ser a última edição durante uns anos.


- porque o Porto só precisa da Liga, e tem aqui oportunidade para o demonstrar, porque esta organiza um campeonato homologado pela UEFA, e isso lhe permite jogar na Liga dos Campeões, nada mais. A Taça da Liga, não tem qualquer benefício para o Porto e embora tenha sido anunciada aos adeptos como um exemplo de mudança e desenvolvimento, mais não se tem revelado mais do que uma rede de segurança para o CR garantir pelo menos um troféu por época. O objectivo do Porto é sempre o campeonato, a Taça de Portugal é o complemento ou a salvação de uma época, a Taça da Liga não é nada, e sinceramente, perdê-la por colocar em campo 11 (bravos) júniores, "cuspindo na cara" do "homem de mão" do Vieira, que preside à Liga, e do "janado" que lidera o Conselho de Disciplina, não é nenhum sacrifício. Mais, deveria até ser pago aos jogadores o prémio a que teriam direito caso vencessem de facto a final.

- finalmente, porque há alturas em que ganhar não basta, e entrar em campo acreditando que se vai disputar um jogo em pé de igualdade com o adversário, tendo em conta tudo o que se tem passado nestes últimos meses, já não é uma demonstração de grandeza; é dar consideração a quem não a merece e um sinal de submissão, de aceitação pacífica desta "Nova Ordem", que aposta tanto em ganhar no relvado como fora dele, e que nem a hipotética conquista do campeonato pela nossa equipa apagará por completo. No limite, caso o meu "desejo" não se concretize, espero ao menos que a equipa que se apresentar em campo inclua... o Hulk.

Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Filipe Sousa a elaboração deste artigo, o qual foi escrito após a vitória sobre a Académica, mas nas meias-finais da Taça da Liga.

domingo, 14 de março de 2010

SAD demarca-se das eleições na Liga

«1 - A Administração da FC Porto - Futebol, SAD demarca-se desde já do acto eleitoral da LPFP que se avizinha;
2 - O FC Porto não irá participar no mesmo, muito menos apoiar quem quer que seja nesse processo eleitoral;»

Estes dois pontos fazem parte de um comunicado da FC Porto - Futebol, SAD, publicado no site oficial do clube.
Isto significa que para a Administração da SAD, é indiferente quem nomeia os árbitros, quem os avalia e, pelos vistos, se o dr. Ricardo Costa irá continuar a presidir à CD da Liga.

A nossa identidade

[Focus]: Os êxitos do FC Porto devem-se à existência de alguém que explique o que é o clube?

[Vítor Baía]: Não tenham dúvidas. O meu único receio e medo é que se descaracterize isto por uma conjuntura actual do futebol mundial, de irmos buscar jogadores de todo o lado e sem qualquer tipo de problema, principalmente da zona europeia, e isso compromete este acompanhamento, porque são os jogadores portugueses que transmitem o que é ser jogador do FCP. A tal mística é difícil de explicar, só mesmo assistindo. A forma como explicamos o que é ser do FCP, que é realmente diferente, o que é ganhar, atitude, agressividade q.b., o facto de gostarmos do clube como se ele fosse nosso. E era isso que passava aos outros e conseguia. A ideia de vamos defender isto como se fosse nosso. Isto é o nosso castelo, aqui ninguém entra. E espero que não se perca. Isto só se consegue com os valores portugueses, porque nós contagiávamos os jogadores que vinham, como Aloísio, Kostadinov, Deco, Lucho e Derlei. E posteriormente, o Derlei já contagiava toda a gente. E não nasceram aqui. Se deixarmos de explicar o que é isso... Esse é o meu único receio e espero que nunca se perca essa identidade.


Dos 13 jogadores que jogaram contra a Académica:
- 7 estão na sua primeira época no FCP (Beto, Miguel Lopes, Alvaro Pereira, Belluschi, Ruben Micael, Varela, Falcao)
- 3 estão na segunda época (Rolando, Rodriguez, Tomás Costa)

Dos 14 jogadores que jogaram em Londres:
- 5 estão na sua primeira época no FCP (Alvaro Pereira, Nuno André Coelho, Ruben Micael, Varela, Falcao)
- 4 estão na segunda época (Rolando, Hulk, Rodriguez, Guarin)

Dos 14 jogadores que jogaram contra o Olhanense:
- 8 estão na sua primeira época no FCP (Miguel Lopes, Maicon, Álvaro Pereira, Belluschi, Rúben Micael, Falcao, Valeri, Varela)
- 3 estão na segunda época (Tomás Costa, Rodríguez, Guarín)

Os números falam por si.
Este é um dos principais problemas do FC Porto e não tem nada a ver com o treinador. Decorre do modelo de negócio que a SAD implementou de há uns anos para cá.
E se esta elevadíssima rotatividade do plantel continuar, adeus identidade. Mais, neste cenário, qualquer treinador, chame-se Jesualdo, António ou Joaquim, irá ter sempre grandes dificuldades em formar uma EQUIPA à Porto.

Foto: Revista Focus Nº 541, 24/02/2010

Com esta Capela ganha-se com coração


Coisa rara deste FC Porto em Coimbra. Reviravolta no resultado, conseguido muito à custa do coração. O juízo e discernimento nem sempre acompanhou os jogadores azuis brancos. Porem a equipa soube caminhar por entre o “braseiro” que está mergulhada, e soube, também, contornar os mandamentos de uma Capela pouco católica, que de forma sibilina nos tentou enterrar. Nada de novo, portanto.

Com o meio campo reestruturado, onde Meireles se colocou no vértice mais recuado, ficando Belluschi e Micael a fazerem dupla mais adiante, o Porto conseguiu de quando em vez acercar-se da área da Briosa, mas nem sempre fê-lo com velocidade de execução necessária para criar os desequilíbrios. Os academistas fechavam bem os espaços, e têm uma dupla de centrais forte, em especial no jogo aéreo, que prejudicou o jogo cruzado tentando servir Falcao. Pelo meio, saíam em ataque rápido e, em caso de perda de bola, atiravam-se para chão, perdendo tempo com a complacência do pavão Capela.


Num dos pífios ataques da Académica, a bola sai cruzada na área portista e dá-se um singular roubo de Capela. Penalty que só aquele pimpão de apito na boca viu. Valeu ao Dragão um golpe de fortuna dos Deuses lá do alto. Passados apenas 3 minutos, os homens de Jesualdo chegam ao empate a partir de um lance de bola parada. Orlando desviou e Bruno Alves agradeceu.

No 2º tempo o encontro seguiu a linha dos primeiros 45 minutos. Maior ascendente do FC Porto, mas ritmo a seguir a lume brando. O despique parecia não sair da cepa torta. Olhando para o seu banco, Jesualdo Ferreira, pouco podia escolher para tentar inverter a tendência do encontro. Lançou Mariano, mas perdeu-o para os próximos tempos. A lista de opções ofensivas vai-se esfumando a cada jogo. Da parte dos elementos comandados por Vilas Boas, atirar para o chão estava na ordem do dia.



Condenada que parecia a partida a uma igualdade, mesmo tentando o conjunto portista melhor sorte, sem grande engenho, diga-se, valeu uma recuperação de bola de Varela a meio campo, servindo primorosamente Rodriguez que fuzilou Rui Nereu. A reviravolta no resultado deu-se, e foi tempo de todos nós respirarmos um pouco mais fundo. Nos descontos Falcao desperdiçou ainda a oportunidade de se esgueirar mais à frente na lista dos melhores marcadores, desperdiçando um penalty “sacado” à moda de João Vieira Pinto.

Fotos: Agência Lusa

sábado, 13 de março de 2010

Uma renovação, sem revolução


A sequência de maus resultados, e, principalmente, o adeus prematuro na discussão de alguns títulos que o FC Porto estava em disputa, tem levantado uma natural onda de insatisfação junto dos simpatizantes azuis e brancos, que tendem sempre nestas situações exigir medidas de acção concretas e imediatas. No caso presente do nosso Clube, uma considerável franja de sócios pede a saída imediata de Jesualdo Ferreira, argumentando que está definitivamente quebrada a base de confiança entre equipa, administração, adeptos e treinador.

Partir para a dispensa imediata do Professor requer, a meu ver, a avaliação ponderada de alguns parâmetros antes de se tomar uma decisão definitiva tão drástica;

1) A saída no momento presente de Jesualdo Ferreira obrigaria quase de certeza a SAD a pagar uma indemnização avultada prevista no contrato (fala-se de 1 milhão de euros), quando daqui a 2 meses, quando a época terminar, a Direcção poderá negociar uma rescisão de forma pacífica e amigável, tendo provavelmente mais possibilidades de conseguir baixar significativamente a compensação a pagar ao treinador.

2) O despedimento imediato do treinador seria uma acusação pública de que o único e grande responsável pela má época da equipa é Jesualdo Ferreira. A meu ver, claramente, não é o único responsável. Aliás, não é sequer o maior responsável. Neste ponto a SAD merece a minha consideração ao não seguir o caminho populista do despedimento, que simultaneamente significaria um sacudir a água do capote.

3) Não estou certo que a saída imediata do treinador traria estabilidade à equipa. Penso até que nos poderia ser prejudicial. Sempre que há trocas de treinadores com as temporadas a decorrer, as equipas tendem em cair num caos táctico e organizacional, que nos poderia por em xeque os poucos objectivos que temos em disputa. Deixar a coisa rolar sem levantar grandes ondas, ainda poderá ser a solução menos má para tentar ganhar a Taça da Liga (onde disputamos uma final com favoritismo dividido) e a taça de Portugal (onde aqui o favoritismo pende claramente a nosso favor).

4) A entrada de um novo técnico ou a substituição interina, poderia levar a nova equipa técnica a tentar desresponsabilizar-se da eventual falha dos objectivos acima referidos, usando o subterfúgio habitual nestas situações de que estão atravessar o fatídico período de adaptação, que mais não passa de um prelúdio ao eventual insucesso obtido.


Dito isto, refira-se que considero o ciclo de Jesualdo Ferreira terminado no FC Porto. O desgaste é muito e a base de confiança do universo portista para com o treinador atingiu um ponto sem retorno. Porem, isso, por si só, não serve de motivação bastante para correr com o Professor pela porta pequena. Da minha parte, pelo menos, merece respeito. Alem do mais, a troca de um treinador é um dossier que deve ser trabalhado em consciência, longe das reacções quentes e emotivas dos adeptos. Da linha a traçar pela administração no pós-Jesualdo depende o futuro do FC Porto. E esse futuro apenas será risonho se esta decisão for tomada em tranquilidade e ponderação.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Futebolês do Século XXI (1)



"É preciso juntar as linhas"

Tradução: Tudo a monte e lá para trás!

Está encontrado o culpado!

Saiu hoje a convocatória para o jogo de Domingo em Coimbra:

- Guarda-redes: Beto e Nuno.
- Defesas: Miguel Lopes, Alvaro Pereira, David Addy, Rolando, Bruno Alves e Nuno André Coelho.
- Médios: Ruben Micael, Valeri, Tomás Costa, Guarín, Raul Meireles e Belluschi.
- Avançados: Cristian Rodriguez, Falcao, Mariano Gonzalez e Varela.

Fucile e Helton não estão convocados sendo que o guarda-redes apresenta problemas físicos (dor no cotovelo direito) e o uruguaio... está fora por opção.
in OJOGO, notícias na hora

Está finalmente encontrado o culpado pela derrota copiosa em Londres. O lado direito da defesa foi um autêntico buraco mas, em minha opinião, Bruno Alves, Rolando e Pereira não lhe ficaram atrás. A equipa esteve mal no geral não sendo necessário estar a individualizar. Os líderes fracos tendem a procurar um culpado para o fraco desempenho colectivo de forma a se aliviarem das responsabilidades.

Dá vontade de perguntar se o Professor não pode também ficar fora da convocatória...

A pesporrência de Jorge Jesus


«Questionado sobre o prognóstico quanto ao resultado, Jorge Jesus atirou 5-0 entre risos»
in abola.pt, 10/03/2010

Presumo que os 5-0 ao 4º classificado da Liga francesa terão ficado reservados para o estádio Vélodrome...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Este é que dava jeito...

Ainda há pouco (um mês) Guus Hiddink assinou pela selecção turca, depois de não ter renovado o contrato com a selecção russa.

Pelo que li, irá receber 3 a 4 milhões €/época.

Isso é o que nos custou o passe (excluindo salário) de um T. Costa, um Mariano, um Prediger - cada. Ou por outras palavras, menos de 20% do que temos gasto por época em contratações de jogadores. Que é como quem diz: é um salário perfeitamente comportável (que facilmente se pagava a si próprio) para o FCP, havendo vontade.

Sobrava apenas o "pormenor" de convencer o treinador, claro. :-D

Mas um Hiddink não é treinador para pedir mundos e fundos em contratações, sendo bem realista, e temos alguns pontos muito interessantes para um treinador que já é milionário e q não estará muito longe da reforma: vôos directos para a Holanda, clima porreiro, boa comida, bom nível de vida na cidade do Porto (para quem tenha dinheiro, pelo menos..), uma cultura amena e aconchegante para um europeu ocidental, um clube com pergaminhos e ambições (bem.... aí é que a porca torce o rabo se ficarmos de fora da Liga dos Campeões....).

Mas sinceramente duvido que a ideia tenha sequer passado pela cabeça dos nossos dirigentes, até porque o Hiddink é dono do seu nariz e iria querer ter mais controlo nas contratações do que o Jesualdo terá tido até hoje...

Relembrando: Tommy Docherty, "The Doc"

Corria a época de 1969/70, aquela que acabaria por ficar na história como a pior de sempre do F.C. Porto, que terminaria o campeonato em 9º lugar. O romeno Elek Schwartz (na realidade austro-húngaro de nascimento, pois Timisoara, a sua cidade natal, pertencia nessa altura ao Império Austro-Húngaro) havia sido contratado para substituir José Maria Pedroto, que no meio de grande controvérsia fora despedido pelo Presidente Afonso Pinto de Magalhães perto do fim da época anterior e rumara a Setúbal.

Schwartz tornara-se conhecido entre nós por ter treinado o Benfica na época de 1964/65, tendo sido campeão nacional e tendo conduzido aquele clube à sua 4ª final da Taça dos Campeões Europeus, que perderia em San Siro por 1-0, contra o Inter de Helenio Herrera, com um famoso frango à Costa Pereira, especialidade culinária então muito em voga no nosso país. Se agora por vezes contratamos jogadores do Benfica, ou desviamos da Luz atletas anunciados com fragor na imprensa como estando a pontos de assinar por aquele clube, com o parcial intuito de aferroar aquele nosso inimigo de estimação, naquele tempo tínhamos, por assim dizer, o tique parolo de contratar quem já servira o Benfica, na vã esperança de que por cá repetissem as façanhas alcançadas em Lisboa.

Mas estou a divagar. Elek Schwartz teve um fraco começo de campeonato (nos primeiros três jogos teve dois empates e uma derrota) e durou apenas uns meses. Interinamente foi substituído pelo adjunto Vieirinha e a equipa até chegou a ter um ligeiro despertar, em parte devido à regular utilização do sangue jovem personificado por Chico Gordo e Seninho, este último na sua primeira época no clube. Lançando os seus olhares para o estrangeiro, a direcção do clube fez uma contratação de peso: o novo treinador era o escocês Tommy Docherty, popularizado pela alcunha de “The Doc”, que já treinara, entre outros, o Aston Villa e o Chelsea, e que mais tarde treinaria a selecção escocesa e o Manchester United.

Docherty nascera em Glasgow em 1928 e entre os clubes que representara como jogador contavam-se o Celtic, seu clube de infância, e o Arsenal. Era um homem extrovertido e famoso pelas suas frases retumbantes. Um dia negociava a sua saída de um clube e, quando os jornalistas lhe perguntaram se já havia acordo, respondeu: “Ofereceram-me £ 10.000 para fazermos um acordo amigável mas eu disse-lhes que terão de ser muito mais amigáveis que isso!”

Cá chegado, o “Doc”, com a carruagem em andamento, pouco podia fazer, e a equipa foi-se arrastando até ao fim do campeonato, perante a geral incompreensão dos adeptos e da crítica para com o escocês. Causou furor e indignação, por exemplo, a sua ideia de, num jogo no Mar, fazer alinhar o esquerdino Francisco Nóbrega do lado direito do ataque, coisa vulgar de hoje em dia.

Mas antes do começo da época de 1970/71, Docherty, a quem a direcção arranjara uma muleta na pessoa do antigo jogador do clube António Teixeira, um bom treinador de clubes pequenos, declarava: “Comigo à frente da equipa desde o princípio, as coisas vão ser diferentes!” E foram, de facto. Com poucas jornadas transcorridas o F.C. Porto foi empatar à Luz por 2-2, com dois golos de Lemos, que fazia a sua primeira época sénior no clube, depois de duas épocas emprestado ao Boavista. E não foi só o empate que espantou: a equipa jogou com grande personalidade e sem nunca revelar medo. O “Doc” era um típico treinador britânico, e achava que para a frente é que era o caminho.

Infelizmente, o plantel do clube tinha as suas limitações, embora naquela época tivesse sofrido uma injecção de talento nas pessoas do referido Lemos, do também ponta-de-lança Abel, contratado ao Benfica, do defesa-central Armando Manhiça, vindo de Alvalade, e do médio brasileiro Bené, proveniente do Leixões. Qualquer ideia de ganhar o campeonato, que há 12 anos nos escapava, era um puro devaneio, pois de facto Benfica e Sporting tinham melhores equipas, o que não nos impedia de, volta e meia, terminarmos à frente dos lagartos, já que estes sofriam dos mesmos males de (des)organização interna que o nosso clube. Nessa época terminaríamos em 3º lugar, o que não deixava de ser um progresso comparativamente ao descalabro da época anterior.

Mas o melhor prato da época estava reservado para o jogo da segunda volta com o Benfica, disputado em Janeiro de 1971. Nesse dia, num jogo antecedido por uma auto-congratulatória homenagem a Afonso Pinto de Magalhães, o Lemos entrou definitivamente na História, marcando todos os golos numa histórica vitória de 4-0! No total “facturaria” 18 golos nessa época, ou seja, um terço dos golos que marcou tiveram o Benfica como vítima.

Mas o inepto Pinto de Magalhães achou que podia dispensar o “Doc”, que ganhava bom dinheiro, como é bom de ver, e remediar-se com a prata da casa António Teixeira. A aposta sair-lhe-ia furada, como se veria na época seguinte.
E Tommy Docherty regressou ao Reino Unido, ainda faltava uma ou duas jornadas para terminar o campeonato, já que entretanto a Federação Escocesa lhe acenara com um convite para o cargo de seleccionador. Passados poucos anos regressaria às Antas, à frente do Manchester United, para disputar um desafio particular que terminou 0-0. O grande Bobby Charlton, já no ocaso da sua magnífica carreira, jogou nessa partida e foi fartamente ovacionado pelo público portista, que já nessa altura sabia apreciar futebol.

Quanto ao “Doc”, mesmo já retirado, nunca saiu verdadeiramente da ribalta, sendo as suas “bocas” muito apreciadas pelo público inglês. O “nosso” José Mourinho, rapaz humilde como todos sabemos, também teve direito, quando treinava o Chelsea, a um “dochertiano” dito: “Se fosse feito de chocolate, José Mourinho lamber-se-ia a si próprio da cabeça aos pés!”.

Nota: Mudei o título destas crónicas, por este me parecer mais adequado.

quarta-feira, 10 de março de 2010

E depois do adeus

A CL já foi, como era suposto acontecer. O jogo correu segundo o registo que vem sendo habitual na presente época.

1. A integração de NAC parece-me um erro de casting. Não porque o JF tenha pretendido reforçar o meio campo e jogar com tracção atrás, mas porque o NAC não é um jogador com rotina para aquele lugar.

2. A defesa é um permanente buraco, o que valida a preocupação de JF em meter alguém para fechar a zona central.

3. O FCP defende mal e ataca sem confiança. Muito correria, e pouco jogo colectivo. Apesar disso, tivemos um nível razoável de posse de bola.

4. O que não fomos capazes foi exactamente de conseguir fazer transições rápidas no ataque e na zona defensiva, pois não conseguimos pressionar, recuperar e ser agressivos.

5. Raramente ganhamos no um contra um e não houve cuidados com os jogadores adversários que pensam e criam o jogo.

6. Bruno Alves já deveria ter sido substituído: para defender o grupo, o jogador e o clube. Comparem as vezes que viram em jogo o veterano Campbell e quantas vezes viram em acção o nosso capitão. Não esteve em campo.

7. Uma mediocridade geral, com excepção de Helton. Quase todos os jogadores estiveram baixo do que podem, normalmente. Uma grande beiça e alguma frustração, porque há sempre uma luzinha de esperança a tremelicar, mesmo nos momentos mais improváveis.

8. E lá no fundo da minha alma, esperava que hoje acontecesse um espécie de ressurreição, como já tínhamos assistido no FCP/SCP (taça de Portugal) e no FCP/SCB.

Sei que é uma figura de retórica muito usada, mas não me sinto humilhado por termos perdido por 5-0. Todas as grandes equipas têm este tipo de desaires e sou do FCP com muito orgulho não só porque costumámos ganhar. Ainda sou mais portista nestes momentos. Nos maus momentos é que se vêm os amigos e a minha relação com o FCP é de paixão permanente.

Esse facto não me desobriga, bem pelo contrário, de tentar perceber o que se passa. Espero que hajam mudanças e não sejam cosméticas. O FCP está doente e precisa de curar-se. Têm a palavra os dirigentes. Ainda há muito para jogar e há que reabilitar o enfermo. Urgentemente.

Força Porto!

terça-feira, 9 de março de 2010

Hoje, não sei porquê, lembrei-me deste...

Humilhados!


O FC Porto foi esta noite humilhado em Londres. É difícil admiti-lo até porque estamos pouco habituados a estas andanças e derrotas, mas vimos jogar o Arsenal praticamente todo o encontro. E quando esboçamos uma pequena tentativa de recuperação, bastou a Arsene Wenger colocar Eboué e o Porto nunca mais se levantou.

Nuno André Coelho a titular e a trinco não é aposta nem para ganhar nem para perder. Não é nada! Nem sei se Tomás Costa era opção ou não, mas ainda haveria outros que podiam ser opção antes de Nuno A. Coelho. Nem as suas características defensivas compensam a opção de colocar um jogador na 2ª mão dos oitavos de final da Champions, em casa do adversário que era só o Arsenal, que ainda não foi titular no campeonato ou na Europa e numa posição para a qual não está minimamente rotinado.

A partir daqui pouco interessa falar sobre o jogo. Num jogo de risco, em que o adversário ia entrar forte e o FC Porto poderia muito provavelmente ficar na situação de ter de recuperar o resultado caseiro, colocar o Nuno André Coelho só podia dar numa coisa: sofrer um golo e ter de o substituir, pois se o FC Porto com três avançados e três médios já ia ter dificuldades, o que dizer das nossas hipóteses com um meio campo composto por dois médios e um defesa central.

Pelo meio deixa-se a ideia aos jogadores e adversários que se vai defender até onde der, que temos medo e que vamos tentar num golpe de sorte chegar à baliza do Arsenal. Restou Falcão a vencer o duelo contra os centrais do Arsenal e Helton que adiou a goleada por mais uns minutos.


No final do jogo, Raul Meireles disse que era preciso levantarem a cabeça e concentrarem-se nos três troféus que havia para ganhar. Primeiro, Raul Meireles equivocou-se assim como Helton o tinha feito após a derrota em Alvalade. E segundo, não é a cabeça que se tem de levantar, mas sim o pé que tem que se meter sempre à bola, concentrando-se no presente e esquecendo a competição de Junho. E é preciso encostar quem tem de ser encostado, seja ele quem for. Antes era assim, agora vai-se permitindo excepções, birras e vedetismos.

A culpa não é exclusiva do treinador. O Futebol Clube do Porto é um clube e uma equipa e é em equipa que todos falham, uns mais que os outros. Há muito mais para além das más opções tácticas numa época em que falhámos praticamente a toda a linha. Mas hoje, como ao longo de toda a época, Jesualdo voltou a errar redondamente, estendeu a passadeira de “equipa pequena” e os jogadores seguiram-lhe os passos. Resultado: 5-0 para o Arsenal e uma saída humilhante.

A lebre e a tartaruga

Por Filipe Sousa


De todas as diferenças que separam as equipas do Porto e do Arsenal, para lá dos orçamentos, e da qualidade dos jogadores, é diferença de “andamento” que mais dificilmente se esbate dentro de campo. O ritmo, a intensidade com que os jogadores de equipas de topo, nestas fases mais avançadas da Liga dos Campeões, imprimem ao jogo, são tais que dão ideia de que os nossos jogadores ficam cansados de ver os outros jogar. É, em suma, em jogos como estes que se percebe o quão miserável é o campeonato português. É a 10ª liga mundial ou coisa do género, mas a diferença para qualquer outro campeonato, mesmo o francês – e na retina ficou, por exemplo o Marselha x Porto de 2003/04 - ou o holandês, é brutal. Por cá temos jogos com esta intensidade (ou assim parece…), não 4 ou 5x por época - os jogos contra os outros grandes - mas 4 ou 5x por década - o último foi o Porto x SCP para a Taça - porque a maioria dos jogos contra os outros grandes são uma pasmaceira, jogos “muito tácticos” – um eufemismo dos comentadores para descrever jogos completamente desinteressantes - e com 30 e muitas faltas pelo meio e outros tantos "casos" de arbitragem. Uma curiosidade: o último Clube do Regime x Porto é, até ao momento, o jogo com menos tempo útil da corrente edição da Liga. Sintomático. (E mais uma prova do génio de Jorge Jesus; tivesse o Porto vencido esse jogo, e todo o país futebolístico criticaria o anti-jogo, a “manhosice” da equipa azul-e-branca.)

De facto, mais dos que orçamentos chorudos, é preciso uma extraordinária conjugação de factores, seja um conjunto de jogadores fora-de-série ou simples sorte, para que o Porto consiga ultrapassar estes “tubarões”, de tão habituado está a jogar contra equipas que de futebol têm muito pouco, e que vivem felizes com empates. Nem que para tal seja preciso fingir lesões de 5 em 5 minutos – esbatendo a diferença entre um jogador de futebol e um actor. Assim, quando aparece um Arsenal ou um Liverpool, é sempre uma aflição. Não é de estranhar portanto que a SportTv transmita jogos, à partida de interesse duvidoso, como o Getafe x Rayo Vallecano ou coisa que o valha – vê-se decerto mais futebol do que na maioria do jogos por cá.

Posto isto, mesmo em vantagem na eliminatória, poderá não chegar ao Porto jogar muito bem para ultrapassar definitivamente o Arsenal. Uma excelente exibição para os padrões locais, pode não chegar para evitar uma derrota. Se vencermos o desafio, o nosso futebol agradece, mas não vai abdicar de nos empatar na primeira oportunidade.

Nota final: O 'Reflexão Portista' agradece ao Filipe Sousa a elaboração deste artigo.